Imagens feitaspelo artista e amigo Leandro Selister,
no grande momento
em que saímos do Lar Doce Lar.
(Clique na foto para ampliar.)
Dois artistas residindo, por 32 dias, num "lar" cercado de grades, montado no meio de um shopping center. Texto escrito a quatro mãos, por Cláu e Beto.
Hoje percebemos que a obra está interferindo seriamente nas nossas reações, o que enriquece muito o trabalho. Estamos sentindo na carne os efeitos de estarmos presos entre grades. Estamos irritados e nos obrigamos a ser gentis e naturais com as pessoas, que, afinal, não têm culpa nenhuma por termos criado esta obra. Refletimos muito sobre todos estes efeitos, e ficamos nos perguntando o quanto essa realidade (porque antes deste trabalho ser arte, ele é o reflexo de uma realidade) estaria afetando a nossa sociedade.
Enquanto tomamos nosso café da manhã, nossa amiga da loja em frente vem conversar. Conta que ontem assistiu à entrevista que demos à TVE, sobre o nosso trabalho e que reuniu a família para jantar, sobre a cama, para ver. Aproveita para dizer que LAR DOCE LAR nenhum é completo sem filhos, que precisamos ter filhos logo. O pessoal todo da loja faz campanha para que tenhamos filhos.
“O que acontece com tudo o que pertence à obra depois?” – Pergunta alguém. Esta obra só existe enquanto está aqui, enquanto estamos aqui. Depois, fica este registro em palavras e a lembrança de quem viu, as fotos, o livro de visitas, os vídeos, a música, nós. As sensações.
Dois amigos vêm visitar a instalação e inicia uma conversa que se estende por alguns minutos. O incômodo de quem está de pé, do outro lado, é também uma armadilha. Enquanto há grades entre as pessoas, há incômodo. Além do psicológico, as pernas doem, não há contato físico, é impossível beijar ou abraçar na despedida.
Questionamos o motivo de algumas pessoas não se aproximarem dos fones.
Além do simples “não estar com vontade”.
Timidez...
Medo de não corresponder às nossas expectativas, não ter a reação que esperamos...
Medo de interagirmos de maneira incômoda, com alguma surpresa desagradável ou assustadora...
Medo do inesperado...
Medo que cobremos...
Medo.
Hoje, ouvi: “coragem não é a ausência do medo, mas a capacidade de enfrentá-lo”.
Hoje senti perturbações visuais, que julgo serem por estresse. Por alguns segundos, senti como se meus olhos não conseguissem fixar a imagem. Resolvi fechando os olhos por uns segundos e respirando fundo.
Fugimos para almoçar. Estamos no nosso limite, preferimos sair de cena por quinze minutos e comermos num restaurante da praça de alimentação. Foi necessário para a nossa saúde mental e para podermos ficar bem durante a tarde.
“Significa o estar isolados, distantes uns dos outros, solitários?”
“As pessoas estão entre grades por medo de ladrão, medo de não pagar as contas, medo da falta de dinheiro...” – Ouvimos de um espectador. Novamente, o medo.
Duas amigas vêm nos visitar. Percebemos que as pessoas estão vindo ver o trabalho e ficando, conversando. Pergunto às visitantes, uma artista e a outra psicóloga, o motivo que as levou pararem para conversar. “O lugar é aconchegante e receptivo”.
“É como se eles estivessem na casinha deles, viu? Ela tá no computador trabalhando, e ele, vai jogar um vídeo game!”
“Eu pensei que vocês não podiam sair daqui!” – A gente sai, mas de colete a prova de balas! – Responde o Beto.
“Vocês devem estar felizes porque realizaram uma loucura de vocês...”
Corro para o LAR DOCE LAR. Hoje o Beto só vem à noite. Está dando aula.
Chego e inicio o dia com a leitura dos jornais. Nenhuma novidade... Falcatruas políticas, falcatruas no futebol, mulheres semi-nuas...
Faço minha maquiagem enquanto penso que poderia ter sido ainda melhor enquanto estive aqui. Os dias estão acabando e bate já uma saudade. Talvez tenha deixado escapar a chance de fazer alguma coisa a mais, sensação de impotência, de que faltou algo, essas coisas de quem sempre pensa que poderia ter ido além.
Visita do artistamigo Leandro, conversa sobre liberdade... Nós, enclausurados, ele, indo embora, buscando a estrada, buscando a si mesmo, buscando o não buscar. Ele leu um texto mais que poético sobre seu projeto, ali, de pé. Ficamos assim, conversando com a grade entre nós por alguns minutos, eu vestindo azul e laranja, ele também, eu vestido e meia, ele paletó e manta. Pensei em convidá-lo para entrar. Rimos da possibilidade de o público pensar em se tratar de uma performance sobre o adultério... O Beto sai e eu coloco outro homem dentro do nosso LAR...! Mas permanecemos separados pela grade.
Frases ouvidas de vozes que passam...
“Liberdade, hoje, é poder escolher a gaiola em que se quer viver!”
“Liberdade é ter cérebro de homem em corpo de passarinho...”
Uma senhora traz uma criança, de uns cinco anos, para escutar a canção... Coloca os fones no menino, que está curioso e atento. No exato segundo em que a criança começa a escutar, a senhora começa a perguntar, freneticamente, para o menino: “Querido, o que tu estás ouvindo? Pronto? Beleza! Tá legal? Então Vamos! Vamos? Acabou? Deu? Agora deu?” E finalizou, tirando os fones da cabeça do menino, no meio da música, dizendo: “Então vamos!” E foram.
Escrevo, escrevo... Percebo que passamos os dias acorrentados a fios: computador, celular, televisão... Serão nossos grilhões?
Envolta em meu robe de seda vermelho, recostada nas grades, sentada no tapete felpudo preto, escrevo. Bebo chá. Um homem de bigode escuta a canção nos fones e dança. O amigo, ao lado, olha para ele, para a grade, para os detalhes aqui dentro (inclusive eu) e ri.
“Tu fica aí o dia inteiro, moça? Por quê?” Pergunta, insistentemente, um homem de uns quarenta anos, terno e gravata. – Sim. É uma obra de arte.– Respondo.
“Ai, que obra de arte chata! Tu tem que ficar aí parada!”, diz o bom homem. – Sorrio. – “Mas, se tu souber de uma boquinha dessas pra mim, me avisa, tá?” – Preferi o silêncio...
“Não vais almoçar?” Perguntaram os funcionários da loja. (Como sabem que eu não almocei?!)
Sinto, pela primeira vez neste lugar, cheiro de incenso.
Cumprimento as pessoas que passam e me chamam, chamando a todos de vizinhos: “Oi, vizinho!”. Somos todos vizinhos de situação, de época, de realidade.
O jingle do shopping já está ferindo os nossos ouvidos. Toca muitas vezes por dia. Pensamos, inicialmente, que a maior dificuldade para os sentidos seria o cheiro da loja de sabonetes, que fica em frente à obra. Ao contrário. Ou nos acostumamos, ou não sentimos, realmente, os cheiros da loja. Mas as músicas-ambiente tocadas nos autofalantes do shopping são difíceis de agüentar, pela repetição exaustiva. É claro que isso não é pensado pela administração, porque as pessoas, teoricamente, estão de passagem, num shopping.
Pessoas fazem muitas fotos... Vão levando pedaços de mim.
“Ah, vocês são da Bienal B, né? Vocês e o pessoal do PoA é Boa, fizeram isso porque não tinha artista gaúcho na Bienal do Mercosul, né?”
“O som parece Raul Seixas!!!”
“Moça! Se eu te libertar daí, tu casa comigo? Ou é o teu coração que está entre as grades?”
Um artista sentou ao lado da grade, fez um desenho da obra, e me deu de presente.
“Cada vez que eu venho ao shopping, tenho que vir aqui ver e ouvir isso, porque é uma coisa incrível esse trabalho!”
“Parece uma casa de uma pessoa que mora sozinha... Um quarto... Um recorte da realidade... De verdade... E tem a música... Que maravilha isso! Vocês não são daqui, né?”
Adolescentes insistiram até que eu os adicionasse no nosso orkut...
“Até a caneta é acorrentada! Hahahahahahahah...”
“Porque vocês estão aí? Pros idiotas perguntarem, né? (risos)”
“Há dias que passo aqui e tenho vontade de salvar vocês! Vocês são gente boa!” – Diz uma senhora com sotaque libanês.
O técnico de manutenção do shopping ficou nosso amigo e veio nos contar histórias dos bastidores do shopping...
O funcionário de uma das lojas, também já nosso amigo, veio nos avisar que haverá um coquetel no shopping, na quinta-feira.
Estamos cansados.
Parou a chuva. Dia lindo de sol, ainda frio. Primavera. Cores maravilhosas nas ruas de Porto Alegre.
O dia começou de forma poética. Um jovem visitante, de uns 20 anos, ficou extremamente tocado pela obra. Ouviu a canção e ficou emocionado, falou da sensação de encontrar algo sensível dentro deste ambiente que ele considera tão frio. Trocamos comentários sobre a arte, a música, e ele foi embora. Deixou uma mensagem no nosso livro de visitas que, a essa altura virou um outro trabalho, tantas coisas lindas escritas... Uns minutos depois, ele voltou para escutar a canção novamente.
Tomamos nosso leite achocolatado com pão de queijo, lemos os jornais.
Pela primeira vez, nestes 28 dias, estou sem paciência para escrever. Meu corpo já não encontra mais posição confortável dentro deste espaço. Tanto eu quanto o Beto estamos irritadiços e com vontade de ir embora. Mesmo assim, estamos conseguindo manter o bom-humor e rir de nós mesmos, assistindo ao desfecho do trabalho e percebendo que já era a hora mesmo de começarmos a querer fugir daqui. Temos constantes ataques de riso, porque a situação de ficarmos irritados com coisas banais é muito engraçada. É como uma experiência. Ficamos brincando de imaginar as nossas possíveis reações durante um ataque de nervos. Por exemplo, diante de perguntas ingênuas do público. Acho que qualquer pessoa nesse lugar já estaria assim, ou pior. Quando percebemos que estamos irritados um com o outro, acabamos também achando graça, já que, em ocasiões normais, praticamente nunca nos desentendermos... Somos muito pacíficos. É muito nítida a percepção de que nossos humores estão completamente alterados pela situação.
Um alarme ensurdecedor de alguma loja disparou e não conseguem desligar. Estamos submetidos a esse som por uns dez minutos.
“Ah, é uma obra do Essa PoA é Boa!” – Muitos eventos de arte pela cidade, as pessoas já estão misturando tudo! ...Que bom! Melhor assim do que uma cidade morta.
Fazemos planos para a produção do evento de encerramento... Alguns acertos de coquetel e som, tudo por telefone e e-mail... Ontem, víamos no noticiário que os traficantes presos também comandam suas equipes de dentro dos presídios, por celulares e rádios. Fazem grandes negociações, compram e vendem, altamente “organizados”.
Pedimos um tele-almoço. Comida caseira. Almoçamos sob os olhares. Já é bem mais fácil ignorá-los, mas sinto falta de comer sem pessoas olhando.
Após o almoço, sentamos em nossa “sacada” e comemos bergamota. Só faltou um sol para nos alegrar e aquecer. Saudades do sol. Quando eu sair daqui, quero abraçar uma árvore, lá na Redenção.
A atendente da loja em frente, já nossa amiga, traz uma gravação para ouvirmos a sua filha, de quatro anos, cantando. São tantos os momentos poéticos aqui dentro. A vida não é pura poesia, quando possibilitamos que seja?
A tarde passa, pessoas passam, sem muita interação, rápidas visitas. Pressa. Escrevo. Atualizo o blog, vejo e-mails, orkut.
Duca Leindecker voltou para rever o trabalho! É muito bom quando percebemos o interesse de algumas pessoas em retornar para compreender, apreender melhor a idéia do trabalho.
Minha vez de ter pressa. 18h. Preciso sair para assistir minha aula prática de aquarela e já estou quase atrasada. Arrumo minhas coisas correndo, visto minha roupa de verdade, meu não-figurino, me despeço, faço recomendações... Parto. Meu corpo parte. Meu coração fica nesta “jaula”.
Hoje foi trocada a exposição em cartaz no Moinhos. O Shopping promove exposições com duração de duas semanas a um mês, no espaço em frente às lojas Masson. Quando chegamos aqui hoje, não era mais a expo de moda que estava ali (criações de alunas da UCS), mas uma exposição de fotos de debutantes. Enormes estruturas em MDF, ricamente pintadas e decoradas, com fotos tamanho A4.
O que me lembra que deve haver um coquetel...
20h18min
O coquetel é uma superprodução. De queijo brie a morangos no chocolate.
Nesse exato momento em que escrevo, avisto um senhor elegantemente sentado em cima da obra da artista Paula Langie, enquanto conversa ao telefone celular. Levanto-me e digo sem som (os lábios se mexem) que isso é uma obra de arte, tentando ser impessoal sem ser grosseiro. Sejamos políticos!
Penso no coquetel que estamos organizando, para o qual já convidamos os lojistas da redondeza, assim como o pessoal da segurança, da administração e tudo o mais...
Provavelmente hoje eu me irritaria até com uma mosca no ouvido.
E penso que o meu texto está muito ácido... Eu estou ácido... Beto-Cáustico.
Hoje é, de longe, o meu dia mais ácido aqui dentro. A agitação contida, a agressividade eriçada e crítica borbulhando. Me sinto humano escrevendo essas minhas sensações que eu mesmo, aqui e agora, reprovo, quando penso racionalmente a respeito. (obs. Este texto publicado está editado, claro.)
...Com as emoções um pouco reviradas, volto-me ao meu pastel de frango com refrigerante, que por sinal está uma delícia...
Tenho muito, e agradeço agora pelo que como, aquilo com o que tantos sonham... Um pastel e um refri, todo dia.
A menina e sua mãe dançam ouvindo a música. Não resisti e fotografei-as.
Um grupo de algumas meninas, uns 12 anos, chegou cheio de perguntas. Poucas quiseram ouvir a música. Queriam saber por que estamos aqui, onde está a Cláu (depois que eu disse que ela é minha esposa e faz o trabalho comigo), se eu dormia aqui, aquelas dúvidas com as quais já estamos acostumados... As meninas já se foram. Uma delas, mais rápida, explica a obra para as outras, de maneira clara e didática.
Agora, um garçom permitiu-se servir uns docinhos para o pessoal da loja em frente. Olhei para ele, mas não foi recíproco.
Ainda chove em Porto Alegre.
Chegamos no shopping e havia uma gravação de um comercial ao lado da nossa obra. E nosso trabalho servia de cabide para um casaco, além de apoiador para umas placas de madeira. Encostadas às grades, inúmeras sacolas e uma arara de figurino. A tomada que utilizamos para ligar nossos disc-men estava sendo ocupada pela equipe, ou seja, não poderíamos ligar nosso trabalho até que eles terminassem. Eles terminaram ao meio-dia. Nada disso nos foi avisado.
Almoçamos comida que a mãe do Beto nos trouxe. Saudades de comida caseira...
Dediquei uns minutos a arrumar as unhas... O Beto captou o seguinte comentário: “Uma instalação com gente dentro! Que máximo! Com gente dentro eu nunca tinha visto! Ela tá fazendo as unhas, e ele mexe no computador!”
“Olha! É o Porto Alegre Em Cena!”
“Parabéns pela ousadia!”
...Pessoas aplaudem!
“Porto Alegre precisa mesmo desses movimentos em lugares alternativos, mais descentralizados!”
“A gente jura que é feliz, mas vive preso!”
...Senhores, bem velhinhos, passam de bengala e param para ver o trabalho.
Um desses senhores nos pergunta: “República ou Monarquia?” – Arte! – Responde o Beto. E ele: “Ah, mas aí tu me desarmas!” – E segue contando uma história de amor que deu errado porque a dama em questão não gostava de arte e poesia... – “Uma mulher sem alma!” – Ele diz. E se despede dizendo que nos ama por estarmos colocando arte na vida das pessoas...
Uma jovem mãe, com o bebê no carrinho, pára ao lado das grades. O bebê se encanta conosco e dá risada, pula no carrinho, “conversa”. Um pequeno espectador. Talvez tenha pensado que somos macacos.
À tarde, assistimos um dvd de suspense. Filme ruim e quase sem som, porque não é permitido aumentar o volume. Acompanhamos pela legenda. Mas foi interessante: nós dois quase deitados, no tapete, cobertos, comendo bala de coco, numa cena das mais caseiras.
Tempo sagrado para manter o mundo virtual em dia: blogs, site, e-mails, orkut... Palavras que até pouco tempo nem existiam e hoje são indispensáveis.
O mundo real também é importante... Temos conseguido acompanhar o que acontece pelos jornais que o shopping disponibiliza aos clientes.
A tarde demorou a passar. Pouco movimento. Pouca paciência. Estamos sentindo modificar o nosso comportamento em relação ao “estar aqui”. Está sendo mais difícil.
Lembrei de um comentário feito por amigos há um tempo e que não foi registrado... Se fôssemos fumantes, não conseguiríamos estar aqui durante tanto tempo. Seria realmente um pouco mais complicado. Os cigarros, para os fumantes, seriam uma fuga para uma pretensa liberdade? Ou uma prisão a mais?
Lanche no início da noite. Café de uma das cafeterias do shopping. Acabamos nos distraindo com visitantes e o café esfriou.
*Happening (acontecimento):
“Forma de espetáculo, muitas vezes cuidadosamente planejado, mas quase sempre incorporando algum elemento de espontaneidade, em que um artista executa ou dirige uma ação que combina teatro com artes visuais.
...Termo criado em 1959, usado para designar uma multiplicidade de fenômenos artísticos.
...Acerca da importância do acaso na criação artística, os happenings foram descritos como “eventos teatrais espontâneos e sem trama”.
...Saída do artista dos áridos limites das galerias e museus para as ruas e praças públicas.
...Eventos programados para chocar a moral estabelecida.
...O happening era tido como algo que deveria criar situações ou eventos que revestissem de aura poética e fantástica os elementos da vida e da tecnologia cotidianas.
...Um instrumento para a produção de contradições.
Em todo o caso, a teoria do happening é tão diversa quanto sua prática.”
Dicionário Oxford de Arte
Chuva novamente. Porto Alegre cinza. E vazia.
Limpar, arrumar, cena do café da manhã.
De cabeça baixa, escrevo. Quando olho para a escada rolante, ela está lotada, todas as pessoas olhando para a nossa instalação. E eu, distraída, nem lembrava onde estava, aqui escrevendo o nosso diário. Levei um susto.
“Isso é que é vida!”, diz um segurança.
“Agora não, Mariana, eu tenho que ir pra casa fazer a sobremesa!” A curiosidade da menina é maior e ela se aproxima e coloca os fones. Os pais a deixam para trás. Ela escuta um pouco e depois sai correndo.
“Olha! É assim que a gente vive dentro de casa!”
“Uma obra áudio visual!”
O Beto foi ao centro buscar os postais/convites que encomendamos, para o coquetel/show de encerramento.
Beto voltou. 13h30min. Cena do almoço. Buscamos duas porções de arroz num dos restaurantes do shopping e acrescentamos um strogonoff trazido de casa, comprado pronto. Enfeitamos com batatinhas fritas de saquinho. (Mais tarde, uma senhora perguntou o porque de nós comermos somente arroz. Provavelmente ela só viu o Beto chegando com os pratos. É interessante que as pessoas pegam pedaços de cena e montam suas próprias conclusões, criando uma nova história.)
14h25min. O Beto dorme. Tenho sono também. O shopping está bem pouco movimentado. Como um chocolate para passar o sono. Não engordei nenhum grama aqui, mesmo estando muito mais parada do que normalmente. Mas sinto que minha resistência mudou. Fico cansada, como não ficava, quando subo escadas.
“É... Pra entrar lá em casa tem que passar por dois portões, seguranças... Bem assim!”, conta uma senhora aos amigos que a acompanham na visita à instalação.
A funcionária de uma loja próxima traz um cliente para mostrar nossa obra. Ela fala da grande repercussão que teve esse trabalho no shopping, que é muito comentado entre os clientes e funcionários, que as pessoas acham que somos muito corajosos (e loucos) de ficarmos aqui por todo esse tempo. E que ela e as outras funcionárias comentam entre elas: “olha lá, agora eles estão comendo!” ou “olha, eu gosto quando ele está dormindo”, acompanhando a rotina do trabalho. Segundo ela, a instalação é “um espelho”, as pessoas se identificam, se vêem nela. Também disse que faz questão de contar às pessoas que não estamos recebendo nada para estarmos aqui, e então todos gostam ainda mais da obra, por admirarem esse “amor pela arte”.
“A quanto tempo vocês estão aí? Porque vocês estão aí? O que significa?...” Quatro meninas eufóricas nos enchem de perguntas. Depois saem correndo, saltitantes, aos berros, contar à mãe o que “descobriram”.
Ganhamos doces de um casal amigo... Muitos amigos que vieram nos visitar trouxeram doces ou comidinhas... Tentamos não citar nomes, mas a todos ficamos muito gratos pela gentileza... É curioso que, esse comportamento, as pessoas costumam ter quando visitam a casa de alguém, ou seja, o nosso LAR DOCE LAR se tornou mesmo uma referência de casa, como era para ser.
Ignorância. Ato de ignorar. Ignorar uma obra de arte no meio do seu caminho, quando há tempo disponível e oportunidade. Ausência de curiosidade? Ausência de curiosidade causa ignorância?
Observamos que as crianças, em geral, ficam muito interessadas pela obra. Seria o olhar disponível, não-treinado, não-viciado?
“Ele tá ali porque ele não comeu tudo, viu? Tem que comer tudo pra não ficar preso!”, diz o pai ao menininho.
“Isso aqui é um brechó?” – não, senhora, é uma obra de arte. “Ah, é?” (faz cara de decepção e vai embora).
Uma querida amiga nossa, professora de artes, veio nos visitar e acabou dando uma aula sobre o trabalho a uma menina, desconhecida, que estava querendo saber mais sobre a obra. Foi lindo ver uma explicação tão clara e didática sobre o nosso trabalho, ficamos os dois muito emocionados. Obrigada, Si!
Toda a vez que uso as escadas rolantes, ouço comentários muito interessantes sobre o LAR DOCE LAR. Dessa vez, ouvi uma jovem explicar ao namorado: “Viu? Eles ficam ali, o dia todo atrás das grades, para nos mostrar que nós é que estamos vivendo assim!”
Chove muito em Porto Alegre, tivemos que pegar um táxi. O shopping pela manhã está deserto. Talvez pelo feriado.
Tomamos nosso café da manhã quase sem visitantes. Pessoas passam, mas não param.
Visitas ilustres: Duca Leindecker, da Cidadão Quem; Theddy Correa, do Nenhum de Nós; Dunga, técnico da seleção brasileira de futebol, Gaby Benedyct, da Bienal B...
Diálogo:
“Ah, é uma cena da cadeia! ...Tem até televisão!”
“E a mala está debaixo da cama... !”
“Mas eles não têm cara de presidiários!”
(Fiquei pensando: A mala embaixo da cama significaria a estagnação?...)
Foi um dia de produção intensa para o coquetel/show de encerramento. Para começar, foi mudado o dia: será no SÁBADO, 29 DE SETEMBRO, às 18h30min, e não no domingo, como seria. Passamos o dia, envolvidos, confeccionando o modelo do convite e providenciando gráfica que os imprimisse de última hora, e com um valor que coubesse no nosso orçamento. O Beto telefonando para gráficas, eu ao lado, ajudando a decidir quantidades, prazos e valores de convites.
Depois, precisamos pedir a um amigo/apoiador, o fotógrafo/multimídia Jener Gomes, que configurasse o convite para o programa de computador que a gráfica utiliza, já que o nosso computador tem recursos limitados. (Toda essa correria porque a idéia de fazer algo para marcar o fechamento desse trabalho também surgiu na última hora.) Foram aproximadamente sete horas de trabalho, no telefone e na internet, até podermos respirar fundo e sentirmos que a função “convites” havia terminado. Trabalhamos duplamente: como cena e como pessoas reais que somos. A vida real invadindo a nossa arte.
Almoço atribulado em virtude do trabalho. Comemos os pastéis trazidos de casa e tomamos o leite achocolatado, o que seria nosso lanche da noite. A cena pode ser a que muitas vezes se repete em muitos lares reais, quando não temos tempo para almoçar...
Fiz uns desenhos de personagens engraçados, para um deles o Beto criou uma voz ótima, e ficamos rindo igual criança, imaginando o personagem e sua vida. Às vezes até esquecemos de onde estamos... Qual será a impressão das pessoas quando nos vêem aqui dentro, morrendo de rir?
Início da noite. Tomamos um sorvete de três sabores, lindo cenicamente...
Uma sexta-feira com cara de domingo: famílias passeando, em câmera lenta; bebês que querem beijar o cachorro cenográfico; casais de braços dados... Cenas idílicas vistas por trás das grades.
Percebo que se tornou mais difícil perceber os detalhes. Certamente porque já estamos acostumados, e tudo passou a ser ‘‘normal”. Cenas do shopping já caíram no “comum”. Estamos ficando “cegos”. É preciso limpar as lentes de vez em quando...
A mãe traz a menina, de uns sete anos, e comenta: “Ela queria ver os presos!” E diz para a menina: “Não são presos olha, filha, é uma obra de arte!” Coloca os fones na menina, que escuta atentamente a música, com os olhos distantes de quem presta muita atenção, concentrada. A mãe, enquanto a menina escuta, pergunta várias vezes se “já deu”. Até que, ansiosa, tira os fones da cabeça da filha (que faz uma tentativa de continuar ouvindo, mas é ignorada) e a leva, bem antes do término dos dois minutos e quarenta segundos da canção.
Os bebês ficam apaixonados pelo Rex, nosso cão artificial. Dão-lhe beijos, abraços, conversam com ele segredos ininteligíveis que só os cães e os bebês entendem.
Duas meninas, pré-adolescentes, colocam os fones e têm um acesso de riso. Divertem-se muito com a canção e a cena. Riem sem parar. A mãe, que passou reto e já está bem distante, impaciente, chama por elas. Contrariadas, largam os fones e saem correndo, no primeiro minuto da canção.
Um dos seguranças passa dizendo que quer ficar aqui dentro, para “não fazer nada”, conosco.
Feriado Farroupilha. Cidade vazia. Dia cinza. Chove. Shopping vazio.
Somente a praça de alimentação abre às dez. As lojas abrem, opcionalmente, das 14h às 20h. Nós cumprimos nosso horário integral: enquanto há público, ainda que pouco, estamos aqui. Das dez às dez.
Começamos o dia com as tarefas de sempre, só que hoje retiramos o tapete para melhor limpar. O segurança veio nos dizer que não é permitido limpar em frente aos clientes. Mas já estávamos em plena faxina, com a cadeira virada de pernas pra cima sobre a cama, tudo erguido do chão. Ao menos tentamos ser rápidos, apesar de que a cena da faxina deve ter sido interessante para quem passava. Ficamos nos perguntando a razão de esconderem certas ações, como limpar. A visão do cliente deve ser de um lugar perfeito, onde tudo é limpo e perfeito, mas não se vê o “como”.
Hoje inovamos assistindo, recostados confortavelmente, a um filme inteiro: Scoop, do Woody Allen. O som se confundia com o murmurinho do shopping e, vez que outra, parávamos o filme para responder a alguma pergunta de espectador.
Um senhor se aproximou, ouviu a canção, perguntou se poderíamos interagir. Elogiou o trabalho, disse que era de fora da cidade e que tinha vindo especialmente para a Bienal. Em seguida, aproximou-se de nós e disse: “Como eu sei que arte conceitual não vende, mas o artista precisa...” Deu-nos uma nota de 50 reais e agradeceu pelo momento de encantamento que nosso trabalho lhe proporcionou. A forma com que ele agradeceu e fez questão de nos dar o dinheiro deixou-nos muito emocionados. Este tipo de reconhecimento, quando percebemos a emoção transbordando no olhar do espectador, é um momento mágico que não pode ser expresso em cifras. Mas quando uma pessoa paga, sem que peçamos nada, pelo nosso trabalho, sentimo-nos, sim, muito honrados e reconhecidos, porque recebemos um presente de alguém que quis nos retribuir pela nossa arte.
15h. O Beto dorme e as pessoas se aglomeram na grade para vê-lo. É muito curioso como essa situação desperta interesse. Fico pensando no motivo pelo qual as pessoas não têm a mesma reação quando vêem uma pessoa dormindo na calçada, na rua. Será porque a grade garante a segurança de quem está olhando, dando liberdade para olhar? Ou porque sabem tratar-se de uma ação fictícia?
“Deram um lexotan pra ele!” Falam alguns passantes.
As pessoas estão risonhas hoje, riem muito de nós e da música.
Há filas nos fones!
O público hoje está interagindo menos, limitando-se a ver a cena e ouvir a canção. Interessante como isso varia. Há dias em que as pessoas falam muito conosco, outros em que usufruem a cena sem interferir.
Uma senhora muito arrumada: maquiagem, cabelo impecável, jóias. Olhos agitados, aflitos, quase sinto o pulsar disparado do coração. “Lar Doce Lar”, ela diz. Coloca os fones, aperta freneticamente os botões do disc-man. “Mas eu não escuto nada!”, diz para as pessoas que a acompanham. (Após ligar o aparelho, há dois segundos de silêncio até o cd começar a tocar.) Ela sinaliza com a cabeça que a música começou. Ouve uns cinco segundos, tira os fones e vai embora. Não vi os olhos dela passarem por um momento sequer pela obra como um todo. Só vi aflição e agitação. Não me parecia que havia motivo para a pressa, ela parecia estar passeando, mas não se permitiu sentir nada. Ou conhecer algo novo. Ou brincar.
“O que é isso pai???”, grita uma criança. “Isso é uma Obra de Arte!”, diz o pai, com uma certa pompa na pronúncia das palavras. Ele pára e escuta a música. A mãe segue com as crianças. Uma das crianças volta correndo, quando vê que o pai está escutando algo e sorrindo. Grita: “Eu também quero, pai!!!” Ele, pacientemente coloca os fones na criança. Ela ouve alguns segundos e arranca os fones: “Não quero mais, pai!!!”, num grito estridente. Ele recoloca em si os fones e escuta até o fim. Depois vai ao encontro da família, ainda sorrindo.
Alguns clientes do shopping já são nossos conhecidos. Nos acenam das escadas rolantes! Retribuímos, como velhos vizinhos na sacada de casa. Não raramente falamos com as pessoas das escadas, gritando: “Tudo boooom?! Passa aqui depois!”
Uma senhora pára, olha... E dá a sua opinião, falando bem alto: “O que falta para mudarem essa situação é voltarem a dar na escola: filosofia, religião, moral e cívica!... Cuidaram tanto da tecnologia e deixaram o humano de lado!... As pessoas modificam quando estão no poder, têm sede de poder!...”
“Olha, olha! Parece um filme ouvir a música e vê-los aqui!”
Sol lá fora. Na rua, temperatura média. Aqui, movimento regular.
Ao chegar no shopping, uma surpresa com relação à obra da artista Kátia Costa: o Cofre. Havia pessoas filmando um clipe musical, dentro da obra, sem a autorização da artista que, por um quase acaso, apareceu no exato momento em que tudo acontecia. Resolvida a situação, a artista tendo dado a permissão para a filmagem, fica a questão do direito sobre a obra. A propriedade intelectual. Podem as pessoas usufruir uma obra dessa forma, sem ao menos comunicar ao criador da mesma? Seria um sintoma da era da Internet, onde tudo é de todos?
...Enquanto conversamos com a artista, ela do lado de fora e nós dentro da nossa obra, pessoas param para ouvir o que estamos dizendo, como se já nos conhecessem, com a maior naturalidade. Já nem estranhamos mais, entendemos que tudo o que acontece nesse espaço é, de alguma maneira, arte.
Almoçamos tele-entrega de comida caseira das redondezas. O entregador trazendo a comida, uniformizado, é uma cena à parte.
A correria retornou às nossas vidas, mesmo aqui dentro. No início desse trabalho tínhamos um tempo que não passava, que precisávamos preencher para evitar o tédio. Agora, o dia é pouco para tudo o que planejamos diariamente. Resolvemos inúmeras questões de trabalho por e-mail e telefone. Estamos produzindo o show de encerramento do LAR DOCE LAR, que será aqui mesmo, no domingo, dia 30 de setembro, às 18h30. Recebemos duas redes de televisão hoje, que nos entrevistaram: a TVE e a Band. O dia passou voando. É como se a nossa rotina fora daqui tivesse invadido esse trabalho e, agora, somos ainda mais reais. Mais uma vez, tudo toma forma sem que possamos intervir.
Um visitante se aproxima para dizer que já foi assaltado cinco vezes, numa das vezes foi deixado nu pelos assaltantes, mas que se recusa a viver enclausurado, segue fazendo as mesmas coisas que sempre fez, indo aos mesmos lugares, vivendo do mesmo jeito.
O simpático jornaleiro que vem ao shopping para fazer entrega, de uns dias para cá, passa diariamente no nosso LAR para dar-nos um jornal de cortesia! Mais uma ação espontânea e imprevisível que se agrega ao nosso happening.
Tânia Carvalho veio nos visitar: “Já me falaram muito de vocês!”
Uma obra viva às vezes chama pelos amigos distraídos que passam sem ver: “Ei! Vem aqui ver a minha casa!”
Escada rolante lotada. Espectadores em trânsito. Olhares de espanto, sorrisos, estranhamento. Desconhecidos acenam.
O shopping devolveu nosso cão cenográfico, o Rex.
Um funcionário do cinema nos chamou de “os boa-vida do shopping”. Segundo ele, para os funcionários do shopping “estar aqui é moleza” e eles pensam que estamos ganhando muito dinheiro por esse trabalho porque, só assim, vale a pena.
“Eles moram aí, é a casinha deles!” Explica o pai ao menino.
Chove. Chego sozinha. É o dia em que o Beto dá aula e só vem à noite.
O segurança brinca: “Só porque o inter perdeu, ele não veio trabalhar, é?”
Sigo o ritual de abertura do trabalho. Colocar o “figurino”; descobrir as gaiolas (que ficam cobertas durante a noite, como que para os passarinhos dormirem); tirar os utensílios básicos da mochila e escondê-la embaixo do tecido vermelho; esconder tudo o que não pertence à cena; armazenar as comidas no criado-mudo; limpar o tapete.
Olhar de fora, acertar os tecidos.
Ouvir os fones, acertar os volumes.
Tudo pronto para mais um dia de LAR DOCE LAR.
A vulnerabilidade de estar aqui exposto ainda não havia ficado tão clara quanto outro dia, quando um homem, aparentemente normal, veio até nós e iniciou uma conversa que logo percebemos ser de uma pessoa com alguma psicopatia. Extremamente desconfiado, ele disse ao Beto: “eu e tu somos caras legais, mas ela, não.” (Ela, sou eu.) Disfarçamos e tentamos manter a cena, mas ele nos solicitava atenção. Depois daquele dia, diariamente, ele vem ver a instalação. Hoje veio novamente. E eu estava sozinha. Diante do meu silêncio, ele foi embora.
“Moça, tu não morre de tédio de ficar aí?”, pergunta uma adolescente. A nova geração, acostumada ao excesso de informação atual, fica ainda mais admirada em ver-nos aqui “presos”.
“Oi, Cláu! Cadê o Beto? Eu leio todos os dias o diário de vocês!” Pessoas que eu não conheço, mas que passam a me conhecer através do trabalho.
Acabei meu segundo livro aqui dentro: Filhos de Anansi, de Neil Gaiman.
Uma senhora diz que demorou a ter coragem de se aproximar porque tinha a sensação de estar me invadindo. “Rondou” a obra alguns dias, até conseguir chegar perto e ouvir a canção.
Essa mesma senhora contou que sua filha está no Canadá e recusa-se a voltar porque, lá, ela pode voltar sozinha da aula e sentar num parque com os amigos, sem ter medo. Agora, a jovem diz não conseguir mais se adaptar à realidade que vivemos no Brasil.
A funcionária da loja em frente trouxe, até o nosso LAR, as fotos das filhas para me mostrar. Teve toda a dedicação de escolher, separar e trazer fotos do que imagino serem as coisas mais importantes da vida dela.
A fotógrafa do jornal O Sul veio fotografar nosso trabalho, bem como as outras obras que estão espalhadas pelo shopping, para uma matéria que sairá no final de semana. O interesse e apoio da mídia é sempre uma felicidade por termos, assim, o nosso trabalho e esforço reconhecidos.
A mãe do Beto apareceu trazendo cachorrinhos-quentes. Apoio familiar indispensável...
Uma pequena menina, tímida, se aproxima. Deve ter uns quatro anos de idade. Olha-me nos olhos. Enfim, pergunta: “Qual o teu nome?” – Cláudia, e o teu? – “Ana”. E vai embora.
Leio o jornal. Bagunça total no governo brasileiro.
“Ta muito legal, né, mãe???” Grita o menino com os fones nos ouvidos, pensando falar baixo. Veste bombacha e chapéu, devido à semana Farroupilha.
“Mas que linda obra de arte...” Diz o rapaz galanteador, lançando-me um olhar lânguido e sensual.
Danilo e Viviane, ele psiquiatra, acharam a canção um tanto “psicanalítica”, assim como nossas outras canções, que conheceram num show que fizemos anteriormente. Aproveitamos para consultá-lo, dizendo que talvez precisemos de uma terapia após o término desse trabalho, ao que ele respondeu que achava que, ao contrário, pelas nossas caras, estamos muito bem. Ufa!
Uma criança de aproximadamente dois anos fica hipnotizada com a visão da “jaula”. Quer se aproximar, mas tem medo. Olha-nos assustada. Dá uns passos na nossa direção, mas recua. O confinamento impõe distância, mesmo para uma criança. As grades representam perigo?
Beto chegou do seu trabalho no mundo externo, trazendo cookies de chocolate.
Ficamos contando como foi o dia um para o outro até percebermos que mais um dia havia terminado.
Dia de sol, vento, frio.
Ao chegar, havia três chocolates bis jogados na nossa instalação.
Limpar, organizar, libertar nossos passarinhos/cds para serem ouvidos. Seriam os disc-men, disc-birds?
Deixo a cena pronta, enquanto o Beto segue seu ritual de escutar a canção e regular os volumes. Só agora dou-me conta de que, acabamos dividindo as tarefas de acordo com as nossas áreas: eu, o visual, ele, o som.
.Tomamos nosso leite achocolatado de caixinha e pães de queijo, o shopping está bem pouco movimentado.
A sensação já é quase a de estar em casa... Já não nos importa nem um pouco os olhares.
Uma ligação nos dá uma notícia muito feliz: falaremos do nosso trabalho na TVE, mais uma vez.
Enquanto a manhã passa, tranqüila como são as manhãs de segunda no shopping, fazemos planos para o COQUETEL-SHOW DE ENCERRAMENTO do nosso LAR DOCE LAR. Sinto, pela primeira vez, um gosto de saudade.
13h30. O Beto sai para buscar o nosso almoço, no restaurante de sempre, fora do shopping. O movimento já é bem maior. Pessoas que vêm almoçar. Ele chega e temos que fazer toda uma manobra para que os visitantes não vejam as “quentinhas” que, esteticamente, não condizem com a realidade dos nossos personagens, definitivamente. Servimo-nos atrás da porta do criado mudo, quase dentro dele, num ato de contorção, habilidade e destreza surpreendentes. E comemos, com nossas expressões de quem está degustando o mais fino banquete em Paris. Passam os executivos apressados. Passam, passam, passam. Poucos páram. Os que páram, ouvem, riem. Parece que este público, especificamente, busca somente o riso. A reflexão, provavelmente, os cansa.
A tarde foi terapêutica. Enquanto as pessoas passavam, vez ou outra parando para escutar a canção, nós dois conversávamos assuntos profundos, análises de nós mesmos. Houve momentos em que estávamos imersos nas profundezas das nossas almas e tínhamos que voltar à superfície para responder alguma pergunta insistente sobre a obra.
Hoje é o dia em que eu, Cláu, saio um pouco mais cedo para a minha aula prática de aquarela. É sempre difícil sair daqui antes do horário de término. O corpo vai, mas a mente fica.
“Lar Doce Lar. Pode falar com ele!” Diz um homem, para um casal que está junto. No entanto, os três partem sem ouvir ou falar.
“Poderia ficar aí sem a informática?”
“Tem alguma relação com o quarto do Mário Quintana?” O Quarto do Mário Quintana é uma réplica do quarto onde ele viveu seus últimos anos, e se encontra na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Refletimos sobre a comparação e é interessante traçar um paralelo: é possível que haja coisas em comum com o quarto do poeta. E há diferenças que deixam claras as mudanças ocorridas: no quarto de Quintana, há uma máquina de escrever, aqui o computador. O quarto de Quintana é livre de grades, o nosso é uma jaula. E tantas outras sutilezas... Há tanto a pensar quanto a isso...
Um lindo Domingo nublado. Ruas vazias, provavelmente a maioria das pessoas ainda está dormindo. Seguimos para o nosso “caso de amor”. Depois das dificuldades de adaptação dos primeiros dias, agora, só resta a satisfação de estar aqui. Na materialização de uma idéia, na concretização de um sonho.
Três senhores se aproximam. Um deles pergunta: “O que é isso aí, hein?”, com um certo desprezo no olhar e na voz, como se o que nós estamos fazendo não fizesse o menor sentido, a menor diferença. E, ao perceber que se trata de uma obra de arte, dá de ombros, como quem conclui que, de fato, uma obra de arte é algo inútil para a sua existência. Mas, como dizia Mário Quintana, “se alguém perguntar o que você quis dizer com esse poema, responda: o que Deus quis dizer com esse mundo?”
No domingo, as portas do shopping abrem às dez da manhã, mas as lojas só abrem às 14h, e apenas algumas. Ainda assim, mantivemos o nosso horário, porque há sempre algumas pessoas circulando pelos corredores. As funcionárias da cafeteria do andar de cima, já nossas amigas, esquentaram gentilmente o nosso café da manhã, já que não havia clientes. Enquanto eu esperava que nossos salgadinhos esquentassem, ouvi delas que muitos clientes perguntam sobre o nosso trabalho e, não raramente, elas escutam discussões sobre ele nas mesas. Uma das atendentes me contou que faz questão de explicar tudo sobre a nossa obra, que somos dois artistas de Porto Alegre, que somos casados, que estamos simbolizando a realidade atual... E, diante de mim, tive uma explicação sobre meu próprio trabalho, vinda de uma moça que trabalha numa área completamente diferente da minha, num lugar onde não se espera discutir arte. É um privilégio, como artista, fazer parte dessa interação. Aquilo foi de uma beleza para mim, que quase chorei.
Uma funcionária da cafeteria me contou que a pergunta mais absurda que já ouviu sobre nós foi: “Mas aquilo ali são pessoas de verdade?”
Definitivamente, hoje é o dia em que as famílias contemporâneas saem para dar pipoca aos macacos. Na falta de macacos, porque os hábitos mudaram, e muitas pessoas preferem os shoppings a levar os filhos ao parque, hoje, os macacos somos nós. O olhar sobre o trabalho muda completamente. Somos atração não pela obra, mas por sermos criaturas enjauladas. É difícil não rir quando um jovem pai, que passa com o filho de uns 3 anos de idade, pára em frente ao trabalho e diz, com muito espanto: “Olha, cara! Tem um cara aqui dormindo, ó!” O menino olha, assustado, para o Beto. Os dois se aproximam ainda mais, encostando o nariz na grade. Circundam o Beto, com olhares de quem acaba de encontrar um filhote de dinossauro. A criança está muda, assustada, já está puxando a mão do pai para fugir dali, antes que o monstro acorde. O pai, boquiaberto, num meio sorriso de surpresa e espanto. O menino puxa o pai e eles seguem seu passeio.
Um outro menino, de uns dez anos de idade, pára em frente à instalação. Estou escrevendo e nem percebo que ele está enchendo um saco plástico de ar, diante do Beto, que dorme profundamente. Depois de bem cheio, ele aproxima do Beto e estoura. E sai correndo. O Beto nem se mexeu.
“Vou dar um beliscão nele pra ele acordar!” Comenta uma moça que passa...
Em frente às grades, pára um menino de óculos, de uns quatro anos. Comenta com a mãe, aflito: ”Eles estão numa jaula? Eu não quero estar numa jaula!!!”
A avó de uma querida amiga veio ver o nosso trabalho. Aos 84 anos, ela mantém os olhos vivos, lúcidos, a pele uns 20 anos mais jovem do que a sua idade cronológica. Me desafia: “Que idade tu me dás?” Conversa animadamente, ouve a música, elogia o trabalho. Conta que é ceramista, e ainda pratica, mostra no peito o colar de cerâmica que ela mesma fez. Pergunto o segredo de tanta vivacidade, e ela professa: “Viver o momento! Dar valor às pequenas coisas! Ser feliz!” Quem há de discordar?
Volto do banheiro e há uma comitiva à minha espera: “Ah, tá ali ela! Ta ali ela!”
O Beto já tem diversos apelidos, dados pelos seguranças e funcionários do shopping: Jesus, Lennon, Lobão...
“Mas com quê eles se mantêm?” Pergunta uma senhora ao senhor que a acompanha. “Eles comem, ora!”, ele responde, sem paciência.
Sento de costas para os fones, de frente para a escada rolante, vejo o andar de baixo. Às vezes me refugio assim, de costas para o público, ainda que não haja forma de escapar dele. Mesmo nessa posição, fico de frente para as escadas rolantes. Às vezes dá vontade de ficar sozinha um pouco. É muita gente. Cansa. A atenção constante, para fins de registro, cansa.
...Olhos espantados me vigiam da escada rolante.
Uma menina traz o avô para nos ver. Ele escuta a música, ela escuta duas vezes. Ao sair, ele conta, com a vaidade dos avôs: “Ela me trouxe até aqui só para ver vocês!”
“O que é isso?” É uma obra de arte!
“Tem gente que tem tanto, tanto dinheiro, mas que só tem dinheiro!” Ouço de uma senhora.
19h. Estou de cabeça baixa, escrevendo. Crianças tossem insistentemente para chamar a minha atenção. Só pararam quando levantei os olhos da tela e sorri para elas.
Lindos cachorrinhos com laços de fita no colo das suas donas... Crianças tomando sorvete... Cheiro de café...
Um dos seguranças vem me contar que uma senhora, cliente que passava pelo shopping, veio dizer a ele que deveríamos fazer esse trabalho no aeroporto... Porque, com a crise aérea, poderíamos alugar o espaço para as pessoas que têm que dormir por lá quando perdem o vôo.
“Há dias estou curiosa... Podes explicar isso?”
- É uma obra de arte. Como um quadro.
“Ah, é só isso então? Não está divulgando nada?”
- Penso que a arte não tem um propósito além de ser... Mas não falo. Não é este o meu papel aqui.
Os seguranças, antes sérios e durões, já são todos nossos amigos. Nos dão “bom dia” sorrindo, fazem brincadeiras conosco, perguntam se podem entrar para jogar vídeo-game com o Beto, se podem entrar para tirar um cochilo... Viramos uma diversão para eles. Os funcionários das lojas mais próximas também: nos adicionam no orkut, mostram fotos dos filhos, oferecem o frigobar da loja para guardarmos nossa água. Esse convívio torna a nossa estada neste lugar mais humana, mais acolhedora. Antes, éramos estranhos, nos olhavam desconfiados, até amedrontados. Os seguranças rondavam nossa instalação como que para controlar qualquer atitude proibida que pudéssemos ter. Passado o perigo, tornamo-nos iguais: somos pessoas que, igualmente a todos eles, trabalham no shopping.
Percebi que, nos primeiros dias, os funcionários da loja em frente eram sérios, mesmo dentro da loja. Parece que se sentiam vigiados. Estavam diante de estranhos. Nos últimos dias, vejo-os conversando, rindo, mais tranqüilos, como se tivessem relaxados em relação à nós.
Senhoras dançam enquanto ouvem a música nos fones.
“É pra divulgar a música!” Diz uma delas. Será que alguém pensaria que a música estaria ali para divulgar a instalação? Porque a música tem mais força nesse caso?
Uma das coisas importantes deste trabalho é o nosso registro de gastos. Diariamente anotamos todos os gastos, guardamos as notas fiscais, fazemos uma estimativa para vermos se estamos dentro do que podemos gastar.
Visitantes amigos, Sérgio e Cristina estiveram aqui no meio de uma caminhada. Ouviram a música, à qual reagiram com entusiasmo e comentários positivos. Sérgio disse que estava ótimo, que fazia a gente pensar sobre o que está acontecendo, e que é isso mesmo... E que nós devíamos estar na Bienal, e não na Bienal B. Deixaram beijos para a Cláu e se foram.
Uma família se aproxima do LAR e um dos dois filhos do casal, uns 4 anos, começa a deslizar dois dedos na grade, seguindo as curvas dela. Aquele movimento lento e cadenciado começou a me cativar, como um vaivém hipnótico. Então a mãe colocou os fones de ouvido nele. Continuou naquele estado zen, com uma expressão facial de curiosidade relaxada. Me lembrou aquelas fotos do Dalai-Lama. E, depois de ouvir, ele tentou escalar a grade. Já isso me lembrou mais o Homem-aranha. Não é a primeira criança que tenta escalar a grade.
“Se não se comportar muito bem, vai ficar que nem ele”, uma mãe disse à filha, apontando para mim.
Mais visitas de amigos. O meu colega de colégio Renan e seu pai aparecem para dar um oi. (Inúmeros amigos aparecem diariamente, é até uma injustiça citar apenas alguns, mas aí o Beto escreveu a frase anterior e achamos melhor conservá-la.)
“Apareceu na TV!”, diz quase gritando uma adolescente, para as amigas.
“Porque eles estão aí, mãe?” – “É como se fosse uma gaiola.”
“Ô moço, isso é uma cadeia?” Não, é a nossa casa.
“Isso é pras pessoas ficarem menos em casa!” Explica um passante aos amigos.
“Vocês são ladrões? Ah, não? Ah, tá, que susto!” Pergunta um menino de uns cinco anos.
Interessante ouvir diversas línguas faladas pelos visitantes... Japonês (ou Chinês?), Alemão, Inglês, Francês, Espanhol! Há um americano que sempre passa, sorri e conversa conosco em inglês... Outro dia o encontramos quando chegávamos, pela manhã, ao shopping, e ele nos acenou da frente do hotel onde está hospedado e desejou-nos um “good job”!
Pessoas sorriem para nós como se nos conhecessem há anos...
“Só isso? Eu posso escutar de novo?” Diz uma menina que adorou a canção.
Eu e o Beto passamos muito do nosso tempo conversando e criando. “Uma boa idéia primeiro existe na imaginação.” Li isso em algum lugar.
Nos demos de presente uma linda banana-split! Funcionou maravilhosamente bem como cenário. Mas durou bem pouco. Dividimos-na, cada qual com a sua colher, sentados no chão, no meio da instalação, tal qual a Dama e o Vagabundo dividindo o spaguetti.
“Parece que passou um furacão, porque tem uma cadeira no teto!”, diz uma menina para a mãe.
Três moças que passavam param diante das grades. Olham por um segundo e, uma delas tira a sua conclusão: “Ah, já entendi, é o casamento!”
Ganhei docinhos do meu querido tio Ricardo, pelo meu aniversário. E, ao comentar sobre a tensão de estar o dia todo em público, aprendi com ele, que é músico da OSPA há mais de 20 anos: “Mesmo que haja um milhão de pessoas na platéia, cada pessoa é uma pessoa, então é como se houvesse, sempre, uma pessoa... Cada uma de um milhão, é uma.”
10h23. Terminamos nosso café da manhã. Saio do nosso LAR, vestindo minha discreta camisola e minha manta de croché preta, para ir à farmácia, buscar umas gotas de hidratante facial, que pego, muito naturalmente, nos mostruários... Aproveitei para me pesar e ver o estrago desses dias sem exercício algum, fora correr do ponto de ônibus até o shopping pela manhã e do ponto de ônibus até nossa casa “de verdade” à noite (o que é um exercício bastante arriscado, já que moramos no centro). Até onde esse trabalho modificará até mesmo nossos corpos? Na farmácia, os atendentes fazem perguntas sobre o trabalho, parabenizam pela iniciativa.
10h30. Eu e o Beto sentamos para as tarefas virtuais: atualizar site, divulgar o trabalho, responder e-mails... A Internet é muito, muito lenta.
12h48. Estou imersa no trabalho digital. O Beto dorme seu sono diário matinal, que funciona maravilhosamente bem como cena. Aproveito para escrever.
Maquiagem, unhas, cuidados com os quais não costumo me preocupar “tanto”. Coisas da vida pública. Repito essas ações inúmeras vezes por dia aqui dentro. Eu, enquanto obra.
Pessoas sem paciência para ouvir. Algumas escutam somente os primeiros segundos.
Um grupo ouve toda, um por um, admirados com o Beto, que dorme, aparentemente profundamente, às 12h58 min.
“Eu não curto esse negócio de instalação! Não vejo graça nenhuma!” Vocifera um passante, enquanto escrevo.
Tarefas do LAR são divididas sem combinação prévia, numa mútua cooperação. Hoje o Beto foi buscar comida num restaurante nos arredores (um local acessível e com uma comida muito bem feita, onde alguns funcionários do shopping costumam comer). Ao chegar, levei a comida e nossos pratos à loja vizinha, onde já fizemos amigos, para servir-nos. Eles têm uma mesa, o que não temos, e achamos que poderia ser um pouco desagradável ao público ver-nos envolvidos com potes de comida pelo chão. Pura logística. Preferimos que já vejam nossos pratos servidos harmonicamente, saindo sabe-se lá de onde, para confundí-los e ser esteticamente agradável ao mesmo tempo. Comemos sentados: o Beto na cadeira e eu na cama, com os pratos sobre os joelhos. Ao terminarmos, o Beto lavou a louça, num local usado pelos funcionários do shopping.
Após o almoço, movimento intenso, li um pouco, enquanto o Beto trabalhava no computador. Tive sono, busquei um cafezinho para mim e um quindim para o Beto. (Juntos, somos praticamente um Mário Quintana!!! ...Ao menos nos gostos!) Peguei na cafeteria uma revista CARAS para ler... Não há o que ler... Só imagens de uma realidade irreal. Mas interessante antropologicamente.
Visita de amigos queridos com presentes muito simbólicos. Uma plantinha Espada de São Jorge, para nossa proteção. E um massageador para a cabeça, um estranho aparato anti-stress, parecido com uma aranha, cuja massagem nos deixou realmente muito relaxados. As pessoas parecem estar sentindo que podemos estar precisando de proteção... É estranho estarmos entre grades, mas desprotegidos. É justamente uma das coisas que questionamos. Um outro amigo, logo depois, ensinou-nos uma maneira de rezar e se proteger das energias diversas às quais estamos expostos aqui.
Trouxemos lindas maçãs para o lanche. Perfeitas, brilhantes, pareciam de cera. Ao mordê-las, não tinham gosto algum...
Tínhamos ao lado do nosso LAR um cão cenográfico, o qual chamamos, num ato de originalidade, de Rex, que pertencia ao shopping. Desde o início haviam emprestado o Rex, que já era da família, fazia parte da vida neurótica dos nossos personagens, completando esse triste quadro com a imagem desesperadora de um cão cenográfico. Pois bem, o shopping, hoje, levou-nos o Rex. Como quem muda um banco de lugar.
Nossa tranqüilidade e satisfação aqui dentro, por vezes, alteram a leitura do trabalho. As pessoas vêem um ambiente feliz. As grades já fazem parte de tal forma, que já não as assusta.
Quando não há ninguém nos fones, as pessoas se aproximam menos. Se há alguém nos fones, formam-se filas para ouvir também.
“Vocês estão aqui para chamar a atenção?”
“Mas vocês não moram, de verdade, aqui?” (Expressão de decepção.)
“É para reivindicar alguma coisa que não permitiram vocês, enquanto namorados, fazerem?” (Terá ele pensado em sexo?)
“As pessoas se sentem presas, não podem fazer as coisas que querem, porque a sociedade não permite...”
“Cada objeto tem um significado?”
“Trancaram vocês aí, ou vocês estão aí por gosto?”
“O computador escraviza...”
“As pessoas não entendem porque hoje em dia vem tudo pronto, as pessoas estão com preguiça de pensar.”
10h30
Já fizemos nosso “desjejum”, limpamos nosso LAR, liguei o computador para as primeiras impressões do dia, enquanto o Beto lê o jornal. Ouço as vozes do pessoal da loja ao lado conversando. Dão risada, brincam, como estão felizes hoje!
O Beto dorme. Pessoas me perguntam: “Ele fica dormindo sempre? E quando ele acorda, o que ele faz?” Tive que me segurar para não rir. Parecia que falavam de um cachorrinho. Só faltou fazerem cafuné no Beto.
Estamos exatamente na metade dos dias para a conclusão deste trabalho.
Enquanto eu passava, “de quatro”, a mini vassourinha no nosso tapete preto que junta horrores de farelo e pó, dei de cara no tênis do Beto. Ele lia, de pernas cruzadas. Espaço limitado. Muitas pessoas questionam sua própria capacidade em ficar nesse espaço pelo tempo que estamos. O ser-humano não sabe do que é capaz.
12h04. Acabei de atualizar o blog. Vamos aos e-mails. 12h25. Terminei os e-mails. Vamos ao orkut. 13h. Terminei o orkut. O mundo virtual já não pode ser descartado da vida atual.
O segurança veio perguntar se não estamos loucos para que “isso” acabe. Uma amiga perguntou quando acaba o “calvário”. Parece que as pessoas estão sofrendo mais do que nós por estarmos aqui.
Almoçamos frango e salada, trazidos de casa. (Almas caridosas, funcionários do shopping, se ofereceram para aquecer nossa comida! Aceitamos, gratos.)
14h15min
Vou à aula prática de serigrafia! Já volto!
“E a gente que reclama, olha quanta felicidade aqui!” É o comentário de uma moça para sua amiga, enquanto ouvem a canção. Ela havia perguntado se eu era o artista, respondi que sim, junto com a Cláu, que no momento está na aula. Conversamos depois e ela comentou sua leitura da obra, achando lindo o que estávamos fazendo, dizendo que “a beleza surge em qualquer lugar, e as pessoas ficam somente reclamando por tudo”. Perguntaram se temos um Cd, expliquei que havia o Cd Cow Bees Feito em Casa, e que estamos produzindo um cd feito em estúdio, para eliminar os problemas técnicos e falta de tecnologia de áudio que tem o Feito em Casa. E ela disse uma coisa muito bonita: "que eu mantivesse um pouco dos erros, porque eles são humanos". Expliquei que ainda temos o Cd Feito em Casa, para quem entende que se trata de um objeto artesanalmente produzido, que contém uma ternura e uma ingenuidade únicas. Pessoas que enxergam isso não se voltam a criticar falhas técnicas e a depreciar o valor técnico de sonoridade, acabamento, arranjos... É um artigo cru de vontade ingênua, uma gravação feita para registrar e compartilhar uma criação que estava emocionando nossa platéia, nossos amigos e familiares, registrar um momento.
Fui eu, Beto, que decidi parar de vender o Feito em Casa. Porque me desagradam comentários negativos que possam surgir a respeito do disco... Pessoas que não nos conhecem, ou não nos viram tocando ao vivo, e que certamente não tiveram generosidade suficiente para limpar (e, por que não, aceitar) as imperfeições e ouvirem a idéia que passamos, a inventividade das letras da Cláu (a quem eu humildemente auxilio na composição, por vezes) e a minha tentativa de fazer canções coerentes e com beleza, ao meu estilo, e que sejam o meio de expressar algumas coisas que sentimos.
O Feito em Casa é a beleza ingênua que existe em dois artistas que, de qualquer maneira, gravam as suas próprias músicas, fazem as cópias, desenham própria capa e sentem-se felizes por isso. É uma contradição do mundo digital: como um mínimo de tecnologia possibilita que uma ação totalmente humana-analógica-emocional surja?
Refinamento técnico é necessário... Eu mesmo quis e podemos fazer um trabalho de gravação de extrema qualidade, é a nossa produção de estúdio. Mas não se pode perder a interpretação, o sentimento, a capacidade que uma canção pode ter de arrepiar. Ainda quando escuto o Feito em Casa, viajo nas nuances de significado das letras e no conforto que aquelas músicas me transmitem, e me perco em meio a lembranças e sensações deliciosas.
O Cow Bees em estúdio pode até ser melhor gravado, arranjado, e tudo o mais. Mas, no final, o que vai contar, para mim, é o arrepio, o sorriso no rosto ou as lágrimas nos olhos.
17h. Volto da aula. Eu, Cláu.
“Pode entrar aí?” Pergunta uma visitante.
“A Bienal B é contra a Bienal do Mercosul?” Não, é um movimento paralelo e, ao contrário, aliado à Bienal do Mercosul.
Cansada, dormi 30 minutos, com um livro aberto sobre o rosto. Um pseudo-sono, ouvindo tudo o que acontecia ao redor, ouvindo as pessoas perguntarem ao Beto se eu dormia o tempo todo.
“Será que eles nos ouvem???” Pergunta uma criança à mãe, em frente às grades.
Final de noite. Duas senhoras param em frente às grades. Uma delas sugere que escutem a canção. A outra responde: “Não posso, vou estragar meu cabelo!”. (Ok, Beto, são 22 horas e nossa arte não vale um cabelo. Acabou por hoje. Amanhã tem mais.)
Estamos totalmente ambientados. Sinto-me quase em casa. A diferença é que, aqui, não consigo parar um segundo, mesmo que não pareça. É preciso administrar a obra o tempo todo: conferir visualmente, conferir os fones de ouvido, os volumes, se estão funcionando corretamente. E a nós enquanto obra. Escrevo muito, tudo precisa ser registrado. Verifico como anda o mundo real pela internet e jornais. Filmo, fotografo. É preciso energia o tempo todo para manter a obra, manter o quadro, para as pessoas desfrutarem exatamente do que pretendemos que desfrutem. É um não-relaxamento constante. 12 horas de trabalho diário constante.
Diariamente, antes de qualquer coisa, quando ainda estou organizando o espaço, preparando a “cena”, o Beto sai de dentro da jaula, vai até os fones, e escuta a canção. Às vezes, fecha os olhos, segura nas grades, outras vezes fica olhando tudo, com o olhar estranhamente distante. É como um ritual que, acredito, faz com que ele “entre na história”. Algumas vezes fiz o mesmo e muda tudo. A visão das grades, ouvindo a canção, que é um misto de felicidade e tristeza, ironia e crueldade, faz re-entendermos a razão de estarmos aqui, nesse momento.
O meu ritual é entrar já anotando as primeiras sensações do dia. O registro desse trabalho é tão importante quanto o próprio trabalho, porque se trata de uma obra viva que se move em direções diferentes a cada momento, gerando, constantemente, outros pontos de vista e questionamentos.
Nossas vidas reais surgem o tempo todo na obra. Olho em volta e observo: temos três celulares aqui dentro, às vezes um está carregando... Uma cena cotidiana muito atual. Aquele monte de fios, fio do carregador, fio do lap top, fio do vídeo-game, da tv que nunca usamos. Fios.
Algumas vezes, somos mesmo prisioneiros. Quando estamos com o pé na porta para irmos rapidamente ao banheiro, aparece um grande grupo de pessoas para verem a instalação. Então, disfarçamos, esperamos o movimento diminuir para sair. A canção LAR DOCE LAR é cantada pelo casal, fala de uma realidade que remete a um casal que faz planos para comprar a sua casa, então queremos estar, os dois, aqui, enquanto as pessoas ouvem a música.
Manhã bastante movimentada hoje! E dia lindo de sol lá fora. Faz 32 graus. Não aqui, onde temos ar-condicionado o dia inteiro.
Pessoas param em frente às grades e escrevem, escrevem, escrevem... O que escrevem???
Enquanto o Beto faz seu descanso, deitado, de olhos fechados, uma espectadora chega bem perto das grades e grita: “Acordaaa!!!”.
Outra passa dizendo à pessoa que está com ela: “Acho que é Jesus!”. Fiquei pensando: Jesus preso numa jaula, dentro de um shopping. Muito contemporâneo isso. Um outro trabalho.
Fomos entrevistados pela Natália, da Revista Noize (www.noize.com.br). Uma revista produzida em Porto Alegre, sobre música. Vamos estar na próxima edição, Outubro. Impossível não tocar nesse assunto, quando conversamos por quase uma hora sobre música, arte, filosofia e psicanálise, assuntos que amamos, com uma pessoa que nunca havíamos visto na frente, mas com quem tivemos imediata empatia. Coisas mágicas desse trabalho. Ela veio, perguntou se poderia conversar conosco e sentou no chão, ao lado da jaula. Como nenhuma das nossas “visitas” tinha feito. Nós, no chão também, do lado de dentro. Talvez esse gesto tenha sido o primeiro passo para criar uma atmosfera tão interessante. No chão, como índios, como crianças, como num ritual. E mais uma cena se fez. Às vezes as relações se confundiam, esquecíamos quem estava fora e quem estava dentro... Quem era entrevistado e quem entrevistava... Uma das coisas importantes dessa conversa foi o que ela comentou sobre uma impressão sua a respeito do Diário Lar Doce Lar. Lendo nosso texto, ela percebeu que as pessoas pensam que estão nos observando, mas nós é que as estamos observando. E é exatamente como nos sentimos às vezes. Quem está atrás das grades? Nós ou eles? Ainda que estejamos aqui presos, quem está preso de fato? Nossos pensamentos e idéias estão livres, concretizados neste trabalho. E os seus?
No caminho para o shopping, um dia lindo, e hoje é meu aniversário. Agradeci por estar viva, saudável e feliz.
Ao chegar no shopping, percebi uma dormência estranha no canto do meu lábio superior. Não acreditei! Um pontinho branco, como uma espinha... Será herpes labial? Nunca tive, mas a baixa imunidade pode fazer aparecer herpes. O Beto foi à farmácia e comprou uma pomada para herpes. Passei e fiz uma oração para curar seja lá o que for. (Obs. Ao final da noite tinha desaparecido. Terá sido a pomada ou a oração? As duas, acho.)
Essa manhã o shopping está mais movimentado.
Dividimos uma fatia de torta com uma vela de aniversário em cima, que o Beto, sorrateiramente, trouxe, escondido, para mim. Cantamos “Parabéns a você”, bem baixinho... Eu comemoraria mais abertamente se hoje não fosse o dia 11 de Setembro... E se pensarem que somos terroristas?
Passam os rapazes armados, com seus malotes preciosos. Olhos arregalados, como que concentrando toda a energia do corpo em observar tudo ao redor. Como feras na selva. Há caixas eletrônicos dentro do shopping, que são movimentados por rapazes em alta tensão.
Costumamos usar os banheiros do andar de cima, que são os mais próximos e, portanto, é mais rápido. Queremos estar os dois na cena o máximo possível, porque achamos que o impacto é maior ao ver um casal enjaulado do que uma pessoa só. A ida ao banheiro é sempre interessante porque, na escada rolante, ouço os comentários das pessoas que estão subindo e não sabem que faço parte da obra. Por exemplo, duas adolescentes comentam entre si: “Olha ali, o cara enjaulado, jogando vídeo game! O cara tem que estar louco pra fazer uma coisa dessas, né?”
Sentados no chão, dividindo um sonho de doce-de-leite, felizes como duas crianças. No meio de um shopping classe A. Se uma dessas pessoas, que freqüentam este lugar, dar-se conta de que é preciso muito pouco para ser feliz, esse trabalho terá valido a pena. Ainda que esse não seja o seu tema principal.
Um rapaz da administração do shopping comenta conosco que o pessoal da sala dele diz que é um “Big Brother” a dois...
“Porque vocês estão engaiolados?”
“Vocês são hippies?”
A senhora aquela que veio ver a obra nos primeiros dias, e disse estar com pressa porque precisava fazer um jogo de “cinco Marias” para a neta de dez anos, voltou para ver se “ainda estávamos aqui”. Ficou admirada com a nossa paciência e contou histórias da sua vida em família. Assim, como uma vizinha que chega na nossa janela. Ouvimos as suas lindas histórias de vida, e cada espectador que chegava, ouvia também. Mas logo ela precisou partir: precisava fazer uma “cama de gato” (aquele jogo infantil antigo, feito de fios) para a neta.
Uma espectadora comenta conosco a sua leitura da obra, diferente de todas as já ouvidas. Para ela, representamos um casal feliz, mas isolado, que não quer dividir essa felicidade com ninguém, vive no seu mundinho próprio.
Manter nosso LAR DOCE LAR em ordem, às vezes, irrita, já que não somos nenhum primor de organização. E queremos tornar o local sempre visualmente agradável, sem bagunça. Não que não apreciemos a bagunça, mas ela daria uma outra leitura. Queremos parecer suficientemente “normais”. Bagunça denota uma certa liberdade da qual não desfrutam os nossos personagens.
Fome. Comida cara. Este é o nosso momento. Acabou a comida que trouxemos de casa e nos recusamos a gastar uma quantia exorbitante por um cafezinho e um pão de queijo, que iria nos alimentar até que cheguemos em casa, à noite. Shoppings são caros, é fato. Por mais que as pessoas queiram dizer que não, até por timidez de assumirem sua falta de recursos. Somos artistas, nosso capital é limitado e podemos assumir que, sim, nossos recursos são parcos. E, se ninguém assume, nós afirmamos: a comida no shopping é um absurdo de cara. O que não impede que pessoas venham passear e comer aqui, como uma forma de lazer. Vivemos fazendo isso, quando estamos vivendo a vida real. Mas, diariamente, é impossível. Saí do shopping e fui à padaria da esquina. Triste destino. Não aceitavam cartão e eu não tinha dinheiro vivo. Voltei irritada e o Beto foi à praça de alimentação do shopping. Comprou, após longa pesquisa, o que encontrou de melhor custo-benefício: dois cachorros-quentes (bem pequenos, daqueles de aniversário) e um café com leite, por R$6,80.
Recebi abraços dos lojistas que sabiam do meu aniversário!
Ganhamos uma revista de cortesia de um rapaz que trabalha na livraria e já ficou nosso amigo... A gerente da livraria nos empresta livros da biblioteca dos funcionários, por iniciativa dela, porque a administração geral da rede negou emprestar livros como forma de apoio cultural, mesmo após mandarmos um projeto solicitando. É bom colocarmos as dificuldades enfrentadas na busca por apoio. Quem trabalha com produção conhece bem esse dilema. Depois da obra pronta, às vezes, nem dos damos conta das dificuldades enfrentadas para realizá-la.
“Paralela à sexta Bienal do Mercosul, acontece este ano a primeira Bienal B. Dá uma olhada no que esse pessoal ta aprontando!” É o texto de abertura do jornalista da TV CRISTAL, canal 11 da net, que veio fazer uma reportagem sobre a Bienal B e gravou a chamada em frente ao nosso LAR. Enquanto testava o equipamento, ia repetindo no microfone esta fala, que decoramos de tanto ouvir. E assim teve início esse dia. Na rua, calor e sol. Aqui, o gélido ar-condicionado e a luz artificial, à qual já nos acostumamos.
Após o nosso “desjejum”, que foi leite achocolatado e pão de queijo trazidos de casa, o Beto deitou um pouco. Essa primeira hora da manhã, durante a semana, é a menos movimentada. Enquanto ele descansava, comecei a ver os e-mails. Interrompi minha função matinal e o sono do Beto para comemorarmos a visita do músico Nando Reis, que escutou e até bateu o pé no ritmo da nossa música LAR DOCE LAR. Como somos admiradores do seu trabalho, foi uma grande honra nossa canção sendo ouvida por ele, que saiu sorrindo e nos deu parabéns pelo trabalho. É muito bom ter o nosso trabalho reconhecido por pessoas que admiramos.
A tarde foi tranqüila, como são as segundas-feiras no shopping. A freqüência consiste basicamente em pessoas que trabalham nas redondezas e vêm ao shopping para almoçar. A praça de alimentação fica cheia. As lojas, vazias. As pessoas passam apressadas e pouco disponíveis.
Hoje, nos permitimos comer “comida de shopping”. Fui à praça de alimentação, comprei uma comida “de verdade” e desci com os pratos prontos. Comemos sob o olhar atento dos nossos espectadores, que adoram nos ver comendo.
Aproveitamos para trabalhar no computador: mandar e-mails importantes, colocar o “Diário Lar Doce Lar” no nosso site oficial... O Beto jogou vídeo-game, eu escrevi...
Seguem as perguntas: “Aqui é mostruário de quê?” ... “Vocês estão vendendo o quê?”
Hoje é o dia em que saio mais cedo, às 18h, para ir à aula. Deixo para o Beto os próximos registros do dia...
Duas senhoras pararam para ver e ouvir LAR DOCE LAR, uma delas com um sotaque francês, ao que fui descobrir que era francesa...Ouviram, viram e não se satisfizeram. A “francesa” perguntou se tinha o CD à venda, depois de dizer “vimos, ouvimos, e agora, é só isso?”. Foi só aquilo mesmo, pois reparei que estavam pouco disponíveis para ver, e pensar. É muito comum isso por aqui. Tempos pós-modernos, tempos ansiosos...
Lindo dia de sol, shopping vazio pela manhã. Algumas poucas pessoas passeiam lentamente pelos corredores, olhando vitrines, olhando para o nosso LAR.
“Olha, filho! Hoje o tio tá acordado! Lembra que nós passamos aqui e ele estava dormindo?” Diz uma jovem mãe para o filho de uns dois anos de idade, apontando para o Beto. Percebo que, aos poucos, para alguns, estamos também virando uma atração já esperada e conhecida, que as pessoas já vem ver para saber como estamos, o que estamos fazendo hoje... Um senhor trouxe a filha, uma menina de uns cinco anos de idade, e perguntou detalhes do trabalho, dizendo que estava acompanhando desde o início, que a filha já tinha ouvido outra vez e havia pedido para voltar e que ele já tinha pesquisado o nosso site para pegar a letra da música. Esse comportamento só é possível a partir do momento em que se dá um tempo para a familiarização do público, o que não aconteceria caso ficássemos apenas uma semana. E transforma o espectador, que deixa de ver a obra como uma surpresa, mas passa a procurá-la como algo já conhecido e, a cada vez, melhor compreendido e absorvido.
Um amigo, também artista, vem visitar o LAR DOCE LAR e traz a sua mascote, uma gata preta, que só saiu de casa para visitar o veterinário. A gatinha estava assustada, não é acostumada a lugares públicos. Nossa surpresa é que, quando ele se aproximou das grades, a gatinha se desesperou para entrar na nossa jaula, mesmo sem nos conhecer. Grudou as patinhas nas grades e queria entrar de qualquer jeito. Segundo o dono, ela achou que o espaço seria um refúgio, uma casa de verdade, por isso a súbita e desesperada vontade de entrar aqui conosco. Ficamos admirados. Conseguimos enganar um gato! Realmente, é a prova que precisávamos para termos certeza de que o trabalho funcionou...
“De que adianta vocês estarem aí? As pessoas não entendem! Era melhor que vocês fizessem uma enquete, para saber o que as pessoas estão pensando da violência! Bom mesmo era o tempo do regime militar!” Opinião de espectadora. Inúmeras pessoas vêm nos dizer que querem de volta o regime militar...
Na maioria do tempo aqui dentro eu estou feliz, mesmo que não demonstre. Hoje, um lindo domingo de sol, pela primeira vez, me senti um pouco triste. Aqui, vendo as pessoas “livres”, passeando, pensei no quanto estar atrás das grades é realmente triste. O quanto as pessoas são tristes quando se sentem presas. O quanto a nossa sociedade é presa e triste. A raiz deste trabalho sempre foi essa tristeza, mas eu nunca a tinha vivenciado emocionalmente aqui dentro, de forma inteira, sensorialmente. Hoje experimentei essa dor na carne. Não o personagem, eu, a Cláu. Para a realização dessa obra, nossas vidas como que pararam. Estamos vivendo esse trabalho em tempo integral, mesmo quando fecha o shopping e vamos para a nossa casa “de verdade”. Quando chegamos em casa, precisamos cuidar de tudo para podermos voltar no outro dia, precisamos verificar os figurinos, providenciar a comida para o dia seguinte, cuidar de coisas que tenham ficado pendentes, lavar louça, roupa. Temos ido dormir exaustos e, ao menos eu, tenho sonhado diariamente com o trabalho. A obra é tão viva que nos persegue quando saímos dela. A estamos vivendo.
Muitas pessoas perguntam se somos realmente um casal e, diante da resposta afirmativa, dizem que se o relacionamento sobreviver a estes 35 dias, nunca mais nos separaremos... Apesar de todas as dificuldades em lidar com essa realidade à qual estamos nos dispondo, a menor é a convivência. Ocupamos muito bem o nosso tempo aqui dentro e costumamos respeitar muito o tempo e espaço um do outro. Quando nos movemos neste lugar de 2,5mx2,5m, parecemos dançar uma coreografia ensaiada... Um se move sempre em relação ao outro, cedendo lugar quando preciso, pensando no bem-estar do outro ao mesmo tempo em que pensamos no visual geral da obra. Até mesmo beber um copo d’água é coreografado: pega a água e os copos quem está mais perto do armário onde guardamos os mantimentos, para facilitar a movimentação no espaço. A hora de comer é planejada: o Beto é maior do que eu, então ele come sentado na cadeira e eu na cama, para equilibrar visualmente. E, assim, vamos dançando a nossa obra viva... E, por incrível que pareça, como aqui evitamos um contato mais íntimo por considerarmos inadequado para o trabalho, mesmo estando assim tão perto o dia inteiro, temos saudades de estar um com o outro. Estar junto nem sempre significa estar perto.
“Eu não vejo as grades. Vejo um casal bonito e feliz, fazendo a sua arte, como os passarinhos que eu tenho, na gaiola, em casa, que cantam todas as manhãs pra mim!” Opinião de mais um espectador.
“Eles estão aí pra fazer um desafio e mostrar por quanto tempo eles conseguem ficar numa jaula!” Uma senhora que passa, explica à outra.
Uma espectadora nos diz que é difícil emocionalmente nos ver aqui dentro, fica extremamente tocada com o que julga ser um sacrifício por uma causa pela qual poucas pessoas tentam fazer alguma coisa. Sente-se culpada por não estar fazendo nada para mudar as coisas que acha que pode mudar...
Rotina de organização do LAR, café da manhã e brincadeira de criar paródia com a canção da Parmalat...
Após doze dias somos totalmente diferentes do que éramos quando entramos. Depois de muitas conversas filosóficas, com contribuição de outros artistas, estudantes de arte e teóricos, chegamos a uma certeza que já vinha se instaurando, mas que agora é fato: somos, sim, obra em processo. Não só a instalação como nós, enquanto obra. A construção desses personagens, que são mutáveis e adaptáveis, são processo. É difícil enxergar quando se está dentro, quando se é parte de algo. Quando a entrega total é necessária e a racionalidade precisa ser deixada de lado. Para mim, no início do LAR DOCE LAR, nossos personagens deveriam ser como atores em um palco. A platéia, normalmente, não intervém numa peça de teatro. E poderíamos ter mantido este acordo mas, como muita coisa nesse trabalho, o rumo que a obra tomou foi simplesmente uma surpresa. Os personagens se fundiram a nós e passaram a interagir, sim, com o público. Ainda não somos nós, mas quase. Os amigos vêm nos visitar, como quem vem à nossa casa. E alguns são recebidos, atrás das grades. Não os ignoramos como tínhamos planejado. Os incluímos numa performance que acaba por fazer parte do trabalho. As pessoas assistem a um casal recebendo os amigos através de grades. Aos desconhecidos tratamos como desconhecidos que, quando buscam interação, podem ou não receber a nossa atenção, dependendo do humor do momento. O importante desta relação é ter bem claro que somos todos vizinhos, companheiros de uma realidade, parceiros de uma situação da qual poucas pessoas conseguem não fazer parte.
O shopping é uma extensão da nossa casa...Vamos ao banheiro do shopping de pijama, à farmácia (“como quem abre o armário do banheiro de casa”, disse a Bibs) à livraria do shopping como quem pega um livro na própria estante de casa.
As primeiras espectadoras ficaram chocadas. Após ouvir a música fizeram o seguinte comentário: “Um pouco chocante para uma manhã de sábado”. Fantástico.
Uma jovem mãe vinha com o filho no colo, chorando alto, desde o início do corredor. Quando chegou em frente ao nosso LAR, a criança esticou a cabeça, se ajeitou melhor no colo da mãe e parou de chorar. Ficou olhando, com os olhinhos ainda cheios de lágrimas, pensando e olhando pra jaula e pra nós dois...
O jornalista da PUC voltou, para fazer novas imagens e entrevistar o Beto, que não estava aqui quando ele veio da outra vez. O Newtinho, também repórter, da TVE, passou e deu balas aos “animais” enjaulados...
Uma senhora se aproxima e começa a contar que ia comprar uma casa e, ao começar a calcular os inúmeros aparatos de segurança que deveria instalar, desistiu de fazer a compra, porque iria morar numa verdadeira prisão. O interessante é que, enquanto ela contava a sua história, rica em detalhes, as outras pessoas que passavam iam parando em volta para escutar, com uma surpreendente atenção. Foi uma incrível contação de história, uma verdadeira performance, ali, entrelaçada ao nosso trabalho. Quando ela acabou, as pessoas foram se dissipando, e logo, éramos outra coisa, prontos para a próxima surpresa.
“Isso é arte.” Diz uma adolescente com a sua trupe. E saem discutindo o que é arte e o que não é.
Algumas visitas nos fazem pensar no “aspecto playground” da obra de arte. Pais que trazem as crianças para nos ver como quem está indo a um parque de diversões... “Ouviu a musiquinha? Agora vamos lá entrar no cofrinho de espelhos!!!” Ouvimos de um pai com seu filho, se referindo à nossa canção e à obra da artista Cátia Costa. De que maneira essa forma de tratar a arte contemporânea será absorvida por essa criança? Como está sendo compreendida a arte contemporânea por esse pai? ...E tantas outras questões!
Cá estamos, tentando representar uma realidade, e nos jogam uma bolinha de papel, vinda das escadas rolantes. Terá sido um elogio, um ato de apoio, do tipo: “também me sinto assim!”? Ou um: “saiam daí, malucos!”? Preferimos nos regozijar do fato de estarmos provocando alguma reação.
Conversando com uma amiga também artista, ela falou de um aspecto do trabalho no qual ainda não havíamos pensado. A questão deste “não lugar” onde nos instalamos. Um lugar de passagem, um corredor do shopping, um “não lugar”, que transforma-se num lugar, a partir do momento em que nosso trabalho está aqui. Agora as pessoas param, conversam, ouvem e vêem o LAR DOCE LAR. Há um texto teórico sobre este tema, vou ler e poderei escrever mais sobre o assunto, que achei muito interessante.
No final da noite, apareceu o amigo, fotógrafo e apoiador Jener, com uma bandeja de sushi! (Estamos ficando mal acostumados.) Essa interação é incrível. É sempre uma surpresa, como um happenig a cada dia.
Feriado. O shopping se comporta como no domingo. As lojas só abrirão às 14 horas. Ainda assim, há pessoas passeando e olhando as vitrines... Tudo em câmera lenta. Muito diferente dos dias normais. É incrível como isso é perceptível energeticamente. Tudo parece mais leve. Até os seguranças têm um semblante mais calmo, dão longas passadas vagarosas. As pessoas sorriem, conversam, vez que outra, algumas, apontam para nós.
“Kunst Werk!” Obra de arte, em alemão. Se é bom ouvir isso na nossa língua, imagina ter o trabalho reconhecido como obra de arte em língua estrangeira!
Há coisas que não pensávamos gerar curiosidade, mas as pessoas perguntam muito sobre o que comemos. Pois bem: trazemos nossa própria comida, que consiste basicamente em sucos, café com leite ou leite achocolatado, sanduíches naturais, frutas, coisas práticas e, dentro do possível, saudáveis... Às vezes entram umas coisas menos saudáveis como cachorro quente, pastel, pão de queijo, pizza, chocolate, que ninguém é de ferro. Raramente comemos as comidas prontas do shopping, por questão tanto ideológica quanto financeira.
Após inúmeras sugestões de pessoas preocupadas com a nossa saúde, que insistem para que abandonemos nossa ação artística para irmos “descansar”, chegamos à seguinte reflexão: o trabalho responde de acordo com a nossa dedicação. É bastante óbvio, mas nem sempre refletimos sobre o óbvio. Se deixarmos de lado, irmos pra casa e acharmos que não vai importar “dar uma fugidinha”, é como se estivéssemos dando menos importância ao que há de mais importante e sagrado, neste momento, em nossas vidas. Isso gera um questionamento sobre a atenção que damos ao que realmente importa. Quando cuidamos bem de uma planta, ela cresce, saudável e bela. Assim é com os nossos projetos de vida. Se estivermos aqui, e houver uma pessoa vendo ou ouvindo o nosso trabalho, ele acontece. E nesses onze dias em que estamos aqui, não houve um momento em que essa mágica não aconteceu.
Um de nossos visitantes comenta a sensação de opressão de conversar atrás das grades. Que, depois de algum tempo nos vendo aqui dentro, sentiu um incômodo profundo, como se algo mexesse fortemente por dentro. Realmente, sentimos que o incômodo de estar “enjaulado” vai muito além da primeira percepção. As pessoas que resolvem interagir conosco ficam em pé e, tanto nós quanto elas, atrás das grades, ainda que estejam fora. Muitas já tentaram nos beijar através das grades, o que machuca o rosto, espeta, fere. O tanto que grades podem ferir. Os abraços que recebemos dos amigos, quando resolvemos sair da jaula para abraçá-los, são os abraços mais afetuosos e calorosos que já recebi. Como se estivessem cheios de alívio por nos verem em liberdade. Qual o resultado, então, de toda uma sociedade se desenvolvendo rodeada de grades?
Outro comentário de espectador é que estaríamos realizando o sonho de qualquer pessoa: passear de pijama pelo shopping, dormir, comer pelos corredores sem ser chamado de louco ou ser interpelado por seguranças. Neste momento, somos os donos do shopping. Os seguranças nos protegem ao invés de criarem limites. O incômodo da exposição foi quasei substituído completamente pela sensação de estar em casa. O que favorece imensamente o trabalho.
Uma mãe pergunta às suas três crianças (de aproximadamente 4 a 5 anos): “Vocês não notaram nada de diferente nessa casinha?” As crianças quietinhas, olham o trabalho. Ouvem, uma por uma, a canção. Saem conversando. O que terão conversado?
Um amigo, também artista, comentou conosco que estaríamos realizando o sonho de todo artista: observar a reação do público diante da sua obra. Realmente, ter esse retorno imediato é uma das melhores coisas desse trabalho. Enquanto eu escrevia este parágrafo, um espectador, com os fones de ouvido, escutando a música, dá uma gostosa gargalhada. Como uma benção do Universo.
Visitantes afetuosos nos presentearam com dois enormes sundaes, de morango e chocolate. Um presente doce para alegrar, da Fabi e do Leandro.
“Essa é a evolução da espécie!” Comentário de passante.
“Lavagem cerebral!” Diz um outro. Penso se no bom ou no mal sentido...
“Veja, ouça e pense!” Um senhor fala às pessoas que passam, após ouvir a canção.
São tantos, e tão ricos os comentários, que eu precisaria escrever o dia inteiro... E eu já “quase” escrevo o dia inteiro.
Há pessoas que realmente dançam ouvindo a música, diante das grades num alegre balé triste.
Final de noite. O movimento cai bastante. Estamos num dos nossos momentos de profunda análise, quando conversamos sobre pessoas, sobre arte, sobre psicologia e filosofia. Uma moça se aproxima da jaula e nos dá um grande pacote de pipocas doces!
Percebo que o Beto está abatido. Emagreceu uns dois quilos desde que iniciamos o trabalho. Iniciamos o dia com a rotina de organização do espaço e nossa cena de café da manhã. Dou uma olhada nos e-mails... O Beto cochila. Estamos cumprindo uma jornada diária de doze horas... Mais uma hora de trânsito... Treze horas em função do LAR DOCE LAR. E é claro que as 24 horas do dia acabam sendo em função do trabalho, mesmo quando dormimos, porque temos ambos sonhado com isso também.
A primeira surpresa do dia foi a visita dos nossos “cumpadres” muito queridos, que vieram de Torres nos ver. Os amigos têm nos visitado com freqüência, inclusive os de outras cidades, para prestigiar nosso trabalho. No último final de semana também vieram nossos amigos de Pelotas. É sempre uma alegria ver os amigos e ficamos nos perguntando se não seria o caso recebê-los, como quem está, de fato, em casa. Mas optamos em mantermo-nos dentro da instalação e conversarmos através das grades, para não interferir no trabalho. No máximo, saímos nós, para um abraço naqueles a quem não víamos há muito tempo. LAR DOCE LAR é um trabalho que vai se caracterizando pela humanidade. Percebemos que, por vezes, precisamos sair de nossos personagens para, ainda assim, criá-los. Às vezes, nos assemelhamos a atores, que estão no palco, outras vezes, somos pessoas reais, vivendo cenas verdadeiras, da nossa realidade, em cena. E a nossa realidade passa a ser a performance.
“Se a gente não ouve a música, não consegue entender!” Diz uma espectadora. Nossa intenção não era explicar a obra através da música, mas que a música seja parte da obra.
Volto do mundo externo com uma caixa de comidinhas para alegrar o Beto, já o encontro bem melhor. O movimento do shopping está estranhamente fraco... Provavelmente por causa do feriado de 7 de Setembro, amanhã. Quando saio da “jaula” e encontro pessoas conhecidas, muitas perguntam o porquê de eu estar fora da “casinha”. O que, por si, já é engraçado, pois a expressão “fora da casinha” poderia ser aplicada quando eu estou aqui dentro, já que o artista, quando está em seu momento criador, está em outro nível de consciência, segundo Paul Valéry. Mas o fato é que, quando planejamos este trabalho, não tínhamos intenção alguma de participar de um desafio, um recorde, nada disso. Como já dissemos antes, a intenção é criar uma cena, reproduzir uma realidade, e isso não impede que saiamos quando muito necessário. A única condição que nos impusemos foi a de sempre haver um de nós presente na instalação e só sairmos quando estritamente necessário. A razão desta decisão é o fato de acharmos que a cena fica mais forte com a presença do casal, caso contrário, poderíamos muito bem estarmos nos revezando, o que muito facilitaria. Por sinal, apenas para constar como diário, hoje saí, das 14h30 às 17h30, para praticar serigrafia, no Instituto de Artes da UFRGS, e providenciar a documentação para a minha formatura em Artes, que acontece este semestre, após cinco anos de muito trabalho e esforço. Estou muito feliz!
Jantamos e seguimos nossas atividades noturnas... O Beto segue lendo um livro. Eu, atualizo fotos no nosso orkut, vejo e-mails, escrevo nosso diário.
Estou na árdua tarefa de passar a limpo coisas escritas, corrigir e publicar, tudo isso num computador e Internet lentos o bastante para enlouquecer uma pessoa. Mas poderia ser pior, já que há dois dias nem isso tínhamos...!
Seguimos nos surpreendendo com cada espectador que resolve interagir... Uma senhora que nos fala em pena de morte, controle de natalidade, todas estas questões polêmicas e importantes, que estão diretamente ligadas à questão de estarmos vivendo, literalmente, atrás das grades. Uma outra nos vem dizer que às vezes não entende a arte, se sente ignorante diante de quadros e esculturas incompreensíveis. E queria, então, saber o que estávamos querendo dizer com esse trabalho.
O rapaz da loja em frente veio conversar conosco sobre o dia anterior, quando ele deu uma entrevista à UniTv, sobre o LAR DOCE LAR. Esta interação com o pessoal que trabalha no shopping tem sido também uma grata surpresa. Estamos conhecendo pessoas das mais diversas áreas, todos muito interessados sempre em saber como está sendo a experiência, de onde surgiu a idéia. E nós acabamos aprendendo muito com eles sobre uma outra realidade, da qual neste momento estamos, de certa forma, fazendo parte. Acabamos, inclusive, descobrindo onde os funcionários buscam sua comida, um lugar bem mais acessível do que a comida do shopping. Muito importante. Por outro lado, trazemos também uma realidade muito diferente para eles.
Dias atrás, quase adoeci. Hoje, foi o Beto. Neste momento, está de cama, no meio do Shopping, com febre...
Posto no blog os escritos de uma semana... Meus olhos ardem. Sinto cheiro de torradas. Hummm... São 17h49min.
Um acontecimento inesperado... Um coquetel de lançamento de um evento de moda, ao lado da nossa obra. Recebemos convite no nosso LAR DOCE LAR, como qualquer pessoa recebe em sua residência. É claro que fomos pessoalmente prestigiar o evento, assim como muitos lojistas e funcionários do shopping. Bebemos champanhe, brindamos, registramos com fotos a vivência, bem como as curiosas bandejas de deliciosos salgadinhos e docinhos, que vinham decoradas com uma fita métrica! Assim que dei-me conta, perdi um pouco o apetite, pensando na metragem da minha cintura após o coquetel. Neuroses femininas...
O encontro no coquetel nos fez perceber que estamos fazendo muitos amigos no shopping. Conversamos muito sobre o nosso trabalho e respondemos a muitas perguntas das pessoas que, enquanto estávamos “em cena”, tinham vontade de se aproximar mas não tinham coragem. Foi uma rica oportunidade de sermos nós mesmos neste ambiente onde, geralmente, somos outras pessoas. Tivemos a chance de perceber esse lugar como um ambiente humano, cheio de pessoas e suas histórias, cada qual com sua vida e em busca da sua felicidade. O shopping, às vezes, não parece humano, tamanha perfeição. É um local quase asséptico, onde tendemos a esquecer a humanidade das coisas e pessoas.
Conhecemos uma curiosa figura, que trabalha com imóveis, cujo cartão anuncia: escritório nos cafés do Moinhos. Ele mantém um site de idéias e invenções, www.idéiadodia.com.br (segundo ele, fora do ar momentaneamente). Criatividade nunca é demais.
Após o coquetel, de volta à instalação, alguns funcionários das lojas vieram nos visitar, conversando sobre música e arte, e sobre seus projetos artísticos quando estão fora dos seus trabalhos convencionais aqui no shopping. A mágica da arte transmutando tudo. Foi uma noite muito especial.
“Essa é uma obra de arte diferente”, diz a mãe.
“Tanta coisa acontecendo e vocês presos!” Diz uma amiga. De fato, Porto Alegre está muito mais alegre nestes dias! Bienal do Mercosul, Bienal B, Porto Alegre em Cena... Ficamos sabendo de tudo através dos jornais... Temos muita vontade de participar de tudo como espectadores que somos, mas estamos ainda mais felizes em estarmos participando como profissionais da arte, com o nosso trabalho, num momento tão especial para a nossa cidade.
Para movimentar o dia, entrevista à UniTv, da PUC. Os comerciantes dos arredores também foram entrevistados, bem como espectadores no momento. Todos juntos por uma causa: divulgar a arte!
Como era de se esperar, com o advento da Internet em nosso LAR, estive o dia todo ocupada com e-mails, “orkutis” e todo o vasto mundo virtual, imprescindível na vida da maioria dos profissionais da atualidade.
Corro meus dedos pelo teclado para atualizar os registros e, em breve, publicá-los na Internet. Também leio, vários livros e jornais ao mesmo tempo... Não na mesma hora, obviamente. O Beto, hoje ausente, resolvendo seus problemas no mundo real.
Até o meio dia, o shopping, no domingo, parece uma cidade fantasma. 12h inicia o movimento mais forte. O Beto, cansado, dorme profundamente, o que deixa as pessoas muito curiosas. As crianças se aproximam e fazem perguntas aos pais. Querem saber porquê “o tio tá dormindo”. Uma mãe responde: “Por que ele viu muita televisão”. Uma senhora idosa tenta cutucar o Beto com uma bengala. A ação dormir dá veracidade, aproxima a obra da vida real. “São presidiários vip”, afirma um espectador. O público de domingo é ainda mais aberto a observar, refletir, parar diante da obra e simplesmente ver... Ouvir a canção. Há fila nos fones. “São artistas! Estão enjaulados como a gente está, em nossas casas!”
“Ele tá dormindo mesmo?” Dormir é a ação que mais chama a atenção.
Um dos seguranças veio nos pedir mais informações sobre a obra, para poder explicar às pessoas que perguntam. Depois de ouvir uma breve “explicação”, constatou: “Ah, era isso que eu tinha entendido mesmo!...”
As moças do café também perguntaram, “mas o quê quer dizer?” Devolvi a pergunta: “Vocês têm grades nas casas de vocês?” Ficaram pensando. E disseram, quase em coro, um “Ah!”, e uma expressão de quem acabou de descobrir um segredo.
Pessoas param em frente à instalação e discutem arte. A estética da obra. “Ah, essa cadeira está assim, por isso e isso... Ela está sentada ali, e ele deitado, para dar equilíbrio...”
“Ouve, ouve, que vale a pena!”
“Que espetáculo isso aqui!”
“Como eles têm paciência?!”
“Eu não entendi o que eles querem dizer!” Diz a senhora, irritada, e sai andando, falando coisas que não consegui escutar, mas não pareciam boas coisas... Bom depende do ponto de vista, neste caso, falar mal também é positivo. O que importa é tocar.
“O artista vai onde o povo está.”
Interativo. Visual. Vivo. Auditivo. Teatral. Nunca é o mesmo porque uma cena nunca vai ser a mesma, nunca vai se repetir.
Nota escrita por um espectador no nosso livro de visitas: “A perfeição invejada!” Uma leitura totalmente diferente. Vendo no nosso quadro um retrato da perfeição... Como se as grades também pertencessem a esse ideal de perfeição.
“Eu estou aqui, em frente às grades!” Mulher ao celular, indicando-nos como ponto de referência.
“Parece propaganda de pasta de dente!” Diz uma outra senhora, com os fones no ouvido, pensando falar baixo.
Uma espectadora não resiste em chamar-nos para dizer que o LAR DOCE LAR, para ela, representava uma simplicidade absoluta: tudo o que, atualmente, é necessário para viver da forma mais simples possível. Elogiou a estética da obra, a sensualidade do sapato vermelho da Cláu, a espiritualidade nos livros, o exercício nos halteres. Ela não tinha escutado a música, que acaba remetendo a um outro aspecto, muito mais chocante, mencionando rottweillers, cercas e tudo o mais... Propus que ouvisse a música. Ela ouviu um trecho e preferiu não embarcar na ironia que a canção insinua. Preferiu levar consigo a sensação gostosa e confortável que havia me relatado anteriormente, a sua primeira impressão.
Colocar os fones é como aceitar um cochicho no ouvido. O espectador doa dois dos seus preciosos minutos e nós doamos a nossa criação, o que há de mais importante nas nossas vidas, naqueles breves dois minutos, só para ele. Cantamos no seu ouvido. Dois minutos de intimidade e entrega, dele e nossa, nosso segredo contado no ouvido. Contado e cantado.
Movimento intenso desde cedo no shopping. Visitação no primeiro minuto em que ligamos os “passarinhos”. A “vizinha” da loja Lua nos trouxe um café com leite, com pão caseiro e manteiga! Hummmm...Fazia dias que não tomávamos nada quente!
Descobrimos uma forma mais prática de limpar o nosso LAR DOCE LAR. O sistema antigo da “feiticeira”, aquele sistema de rolinho, que se passava nos tapetes quando nem todo mundo tinha aspirador de pó. Nosso lindo tapete preto de pele acrílica ficou novinho novamente. Já estava ficando cheio de farelos. O Beto foi de pijama e pantufas comprar nosso sistema limpador, numa loja aqui dentro do shopping, sob o olhar de estranhamento de quem passava por ele e não entendia nada. Esta é uma outra face deste trabalho: enquanto as pessoas passam apressadas pela nossa jaula, nós estamos nos nossos pijamas, muitas vezes no meio da tarde, lendo tranqüilamente, bocejando... Nos permitindo fazer coisas que o homem contemporâneo, na maioria das vezes, não se permite. Isso tudo acontecendo aqui, no que se pode chamar templo do capitalismo, onde “time is money”...
Duas irmãzinhas vieram ver a exposição da Barbie, que está ao lado da nossa instalação. A mãe das meninas me encontrou durante minha curta fuga ao banheiro para escovar os dentes e perguntou se eu fazia parte da exposição das Barbies. As meninas tinham dito a ela que eu era uma boneca gigante, que me movimentava como uma boneca, ao que ela respondeu que achava que não, mas as crianças insistiram que sim. Me senti a própria bruxinha de pano, descabeladinha e esfarrapada, ao lado das Barbies lindíssimas, produzidíssimas, com seus cabelinhos impecáveis de chapinha. Uma das coisas mais belas de uma obra de arte é poder despertar as mais diversas interpretações e gerar reflexão... A das meninas foi tão mágica e inocente quanto a realidade delas.
Ouvindo os passantes:
“O que é isso?”
“Tem até cachorro!”
“Eles estão ouvindo alguma coisa! Quero ouvir a música!”
“Ali, ó, ele (o Beto) pegou aquela moça e agora vai pegar vocês, hein?” – Mãe assustando os filhos para não chegarem perto das grades.
“O que é isso?” “É o shopping com a bienal!”
“Com vídeo-game e computador é fácil!”
“Que horror isso aqui!”
Descubro que falta do que fazer gera mania de limpeza... Nem sei quantas vezes já limpei o tapete da instalação.
...Pensamos em usar coletes a prova de balas para ir ao banheiro.
...Daqui da minha sacada vip vejo a balança da farmácia... Como as pessoas se pesam!
Não consigo relaxar quando estou aqui... Sinto como se a minha alma estivesse exposta o tempo todo. Como quando fazemos um desenho e não queremos mostrar... Às vezes dá vontade de esconder essa instalação no bolso e sair correndo...! Essa tensão de expor um trabalho pode ser menor quando não se está dentro do trabalho... Mas acho que depois desta experiência vou ser uma pessoa melhor, mais corajosa de expor meu interior.
O computador pifou... Agora escrevo num caderninho, para passar a limpo depois... O Beto, tentando melhorias para nosso LAR DOCE LAR, tentava fazer uma modificação no sistema do lap top e deu errado... Ficamos sem computador por dois dias, até ele conseguir instalar o que queria... Ainda estamos na batalha para colocar Internet na jaula e facilitar nossas vidas.
A nossa ação afeta a leitura da obra. Enquanto o Beto jogava vídeo-game ouvi de um espectador, que apontava pra ele: “Crianças, esta é a vida inútil!”
Uma menina, de aproximadamente 5 anos, dança ouvindo a música. Os olhos noutra dimensão. Completamente inteira no que ouve, imersa no som. A canção acaba, ela pede à mãe para escutar novamente. Dança. Ouve até o final. Pega na mão da mãe e sai, explicando a ela o que tinha ouvido.
Fotografo as pessoas que nos observam e acontece a mágica: sou observada ou observador? Coloco os óculos escuros e passo a ser a espectadora de um show que nunca é o mesmo. Reações muito diversas, naturais, humanas. Ainda mais naturais do que as minhas, já que sei estar sendo observada. Pela primeira vez, em quatro dias, sinto uma tranqüilidade, e até prazer, em ver os olhos das pessoas na instalação e em mim. Espero conseguir uma concentração daqui por diante, para que o trabalho não seja tão sofrido como vinha sendo.
O sábado traz um olhar mais tranqüilo... Como se todos estivessem sem a pressa que vimos durante a semana. Este olhar é como um carinho no nosso trabalho e é muito boa essa sensação.
“Que irritante! “ Diz a menina depois que expliquei se tratar de uma obra de arte.
A interação física do público com a obra é muito próxima. Pessoas se penduram nas grades, colocam os braços pelos vãos, quase entram na jaula. Um contato que raramente se vê entre obra e espectador.
Coralistas da OSPA viram nosso trabalho e resolveram nos presentear com um pocket show. Pessoas pararam para ver e tudo se transformou num outro trabalho. Uma nova perspectiva.
Ganhamos chocolates de alguns amigos visitantes!
Fomos entrevistados por uma rádio de Buenos Aires!
Sábado foi o dia mais movimentado desde a abertura. E eu teria escrito muito mais, se o lap top não tivesse pifado!
11h32min
Até este horário fizemos coisas da rotina do nosso LAR DOCE LAR. Após a organização básica da instalação (que consiste em limpeza, organização, conferência de equipamentos), o dia começa sempre com nosso café da manhã e leitura do jornal do dia, de pijama e descabelados. Mantemos o figurino até o meio-dia (como privilegiados que, aliás, normalmente não somos).
Hoje pela manhã concedemos uma entrevista sobre nosso trabalho à Band News, e foi ótimo, porque pudemos falar mais sobre a vivência em si, que não havíamos falado ainda à imprensa, já que só havíamos sido entrevistados antes do trabalho começar a acontecer. A participação dos meios de comunicação é fundamental para que tudo flua, já que vivemos um momento em que a mídia é muito importante. Depois da abertura, muita coisa se transformou, o trabalho cresceu, está muito mais rico. De fato, uma obra de arte só está completa com o olhar do espectador.
Um dos fatores mais intrigantes, e que é explicado cientificamente, é o fato de algumas pessoas passarem ao lado da grade e não a verem! (A ciência explica que quando o cérebro está focado em algo, não percebe o inesperado, por mais estranho que este possa ser.) É muito engraçado perceber que estamos totalmente deslocados desta paisagem mas, ainda assim, com toda esta informação visual do shopping, passamos despercebidos para algumas pessoas.
Uma avó que se diz apressada porque precisa terminar de fazer as “cinco Marias” que prometeu à neta de cinco anos... O brilho nos olhos dela é o mesmo do bebê que vimos conversando com o cachorro noutro dia.
Várias pessoas ouvem a música e saem cantarolando, ou assobiando... Sinto como se este trabalho, nestes momentos, adquirisse vida própria, se descolasse do que é, aqui, e fosse junto com aquela pessoa... Como se a pessoa levasse consigo uma parte do trabalho impressa na alma. Poder estar aqui, presenciando estas reações, é o que compõe esta obra, fazendo com que ela seja realmente viva e, portanto, mutável. Cada reação é um pedaço do todo: do simples “gostei”, às queixas da senhora que ficou revoltada conosco, ou às inúmeras fotografias tiradas pelos espectadores, que são também uma extensão do trabalho.
Hummm... Dor de garganta não estava nos meus planos... Calafrios pelo corpo, cansaço... Sinais de gripe à vista. Peço para o Beto buscar para mim um anti-gripal com vitamina c... Todo mundo sabe que pouco adianta, mas é melhor do que nada. Fico observando-o da nossa “sacada”. Lá vai o Beto, no seu personagem. Aqui dentro, combinamos um andar mais cênico, como todo o nosso comportamento enquanto “obra”, para manter a energia da performance. Observo o personagem do Beto entrando na farmácia. De fato, não é o Beto. Quem é esse, afinal?
A mediação vista de dentro das grades é um espetáculo à parte... Uma mãe explicando a uma menina de uns 7 anos: “eles estão assim, dentro das grades, como nós estamos, na nossa casa...”
Uma menina de uns 15 anos, enquanto escutava a canção nos fones, abre a bolsa, tira uma flauta e começa a fazer um acompanhamento de improviso... Dançando e tocando flauta... Consegui filmar um fragmento disso... O pessoal mais jovem, na maioria, gosta muito, principalmente, da música, pegam o site, perguntam quando lançaremos o cd... Retratam bem a geração tecnológica à qual pertencem. É perceptível a maior intimidade e interesse com a linguagem musical.
Uma senhora pega um celular, em frente às grades, liga para alguém e começa a narrar o que está vendo... “Uma jaula, aqui no meio do shopping! Tu ias amar! Tu ias amar!... Precisas ver!”
Os bebês, quando as mães permitem que se aproximem, ficam fascinados, olhando a jaula, nos olhando... Parecem querer compreender que tipo de bichos são esses, ali presos... Não são macacos, nem cachorros, que bicho é esse??? Fotografei o bebê Antônio em seu momento nos observando, com as mãozinhas grudadas na grade.
18h. Início da noite de sexta-feira. Como será o nosso primeiro final de semana como obra de arte? O movimento é grande no shopping.
Percebo que poucas pessoas assinam o nosso livro de visitas, apesar de ele estar bem visível.
...E as muitas fotos que fazem da obra, conosco dentro... Pequenos fragmentos do LAR DOCE LAR...?
Penso nas pessoas que acham que estamos sendo pagos para estarmos aqui, “sem fazer nada”, e de como diríamos que não há remuneração financeira nesse trabalho. Me peguei pensando em uma possível resposta, na linguagem do “mundo dos negócios”: é um investimento... A arte é um eterno investimento – um investimento em mim mesmo, um investimento na minha felicidade, um investimento na minha intelectualidade e paixão, um investimento no meu gosto, um investimento nas minhas idéias. E depois, investir no outro...
Na falta de avisos de “não alimentem os animais”, amigos solidários com a causa jogaram balas e bombons na nossa “jaula”...
A visita dos amigos artistas sempre conforta nosso coração... Como um amigo que te entende e ajuda num momento importante da vida.
Conheça Cow Bees em: www.cowbees.com
Ouça LAR DOCE LAR em: www.cowbees.palcomp3.com.br
Texto escrito a quatro mãos, por Cow Bees.
Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007.
A ABERTURA
Desconforto.
Enjaulados.
Observados.
Que atitude adotar?
Que postura manter?
Desconforto de estar exposto.
Felicidade pela exposição.
Ansiedade. Irão gostar?
E se não, que bom! Como gostar de grades? Como gostar de prisão?
São 21h15min. As reações são muitas e muito diferentes. Olhos nos buscam, nos despem. Sorrisos.
Entrevistas para a mídia. TVE e RBS. Obrigada pela força!
A LUZ SE FOI! A primeira adversidade! ...Percebo que precisaremos também de um aspirador de pó... O técnico trouxe a luz de volta em segundos. Ufa. O técnico dentro da jaula e cenas que não imaginávamos vão surgindo...
E a cada pessoa que chega, o trabalho passa a existir um pouco mais e sempre diferente...
Foi quase impossível não interagir com o público como havíamos planejado.
As perguntas vão surgindo:
“Por que eles estão presos?” Perguntam as crianças.
“Podem ser alimentados?”
“Pode fotografar?”
Muitas, muitas pessoas escutam a música dos fones...
O shopping vai esvaziando até quase não haver mais ninguém.
Estamos exaustos.
Terça-feira, 28 de Agosto de 2007.
PRIMEIRO DIA
Estou sem o Beto, que foi dar aula e já volta.
Sozinha é muito mais difícil ficar exposta.
A primeira reação do dia: um sorriso.
Seguranças armados passam pela grade, nem olham, segurando suas armas, tensos. Carregam malotes. O shopping é um ambiente desconfiado. Combina muito com a nossa proposta.
Ouço as vozes das vendedoras.
Os comentários dos passantes são variados:
“Vida boa, hein?”
O público estranha... O inesperado de ver uma jaula no meio do shopping, neste espaço que provavelmente conhecem bem.
Passam longe das grades. Longe dos fones de ouvido. Quando levanto o olhar, desviam o deles. Parecem gatos assustados.
É muito difícil comer sendo observado! Não há para onde correr... Atrás, a escada rolante, na frente, as lojas.
Poucas pessoas se aproximam, percebo que estão curiosas, mas olham de longe.
A primeira hora passou tensa, sem aproximação alguma. Minhas mãos transpiravam sem parar.
Liguei a tv. Volume baixo, mas mesmo assim o segurança veio pedir que tirasse o volume.
É estranho estar aqui neste momento, dando um pedaço da minha vida para gerar esta estrutura, esta imagem viva... Uma idéia concretizada... Gerando agora mais idéias e questionamentos, tomando forma, formas que nem eram previstas.
11h07min
A primeira pessoa a assinar o livro no dia.
11h08min
Uma segunda pessoa coloca os fones.(Sério e concentrado.)
É quebrado o gelo.
Percebo que eu também fujo meu olhar dos olhares. Evito olhar em volta. É tão difícil para mim quanto para eles esta interação. Um nascimento de uma relação entre desconhecidos.
Observar as pessoas através da grade, no andar de baixo, é muito interessante. E, quando dou as costas para as pessoas que estão passando, elas se aproximam mais. Riem e dançam escutando a música! Balançam a cabeça, concordando com a letra.
Perdi definitivamente a conta dos visitantes\ouvintes...
Ouço um comentário:
“O que leva uma pessoa a parar a sua vida para estar aqui? Sentada no meio do shopping, dentro de uma jaula?”
...Fico pensando. O que leva um artista a criar?
Moramos em casas que mais parecem jaulas... Vivemos com medo... Uns atrás das grades em casa... Outros presos de fato. Como fica a vida neste contexto? Como fica a arte, que ao longo dos tempos foi o reflexo da sociedade?
E nossos pensamentos, sentimentos, idéias, ideais?
Não estão também aprisionados?
Quem são as maiores vítimas? Os que se protegem atrás das grades, ou aqueles dos quais se protegem?
Desconforto...
Ok... Conforto demais pode desequilibrar: a mente e o corpo ficam mais lentos e com dificuldade de assimilar coisas novas.
15h47min
Observo um pico do movimento.
As pessoas se aproximam mais. Terá a minha atitude modificado em relação à manhã? Ou as pessoas que vão ao shopping à tarde são mais dispostas e disponíveis?
Querem conversar, não resistem a me fazer perguntas sobre o trabalho. Também não resisto, acabo respondendo, e o trabalho se transforma. Como fugir?
Querem também desabafar, querem dizer que também se sentem inseguras, que suas casas também são cheias de grades... Escuto.
Ouço, sobre o trabalho: “Crítico, ácido”.
Algumas pessoas não conseguem esperar o primeiro trecho da música, que é cantarolado e, ansiosas, desligam o aparelho: “Ah, não é nada, é só um LA LA LA...”
O cantarolar inicial dura apenas 20 segundos! Não é surpresa a ansiedade atual, sintoma da enxurrada de informação à qual somos expostos mas, vista assim, escancarada, dói mais. É uma pena ver que tudo poderia ser mais “sentido” e saboreado se nos permitíssemos.
Impossível não registrar a visita de Tarcísio Meira Filho e Glória Menezes... Que ouviram a música e quiseram saber mais do trabalho, até serem descobertos por fãs.
Seria interessante um gravador para captar certas opiniões das pessoas, sobre governo, segurança... Uma senhorinha se aproxima da grade e me pergunta: “Mas de quem tu achas que é a culpa?”
Culpados? ...Como culpar alguém por uma ferida na sociedade? Somos todos culpados...
Mais celebridades na porta do LAR DOCE LAR, desta vez portoalegrenses: Alfredo Nicolaievski e Paulo Gomes. Sugestão do Alfredo: arames farpados. Tá anotado. E o trabalho vai se construindo a cada minuto.
Um dos momentos mais interessantes do dia: pintar as unhas. Dediquei-me à tarefa e, que surpresa! Várias pessoas pararam em frente à grade para olhar...! Foi um momento mágico, onde senti o jogo do teatro acontecer.
O amigo, fotógrafo e apoiador incondicional Jener Gomes aparece, encenando um entregador americano, com um inglês invejável e um pacote muito esperado: o notebook!!! Participando da obra, criando um personagem, entrando no jogo... Obrigada, sempre! ...Nenhuma loja quis emprestar um notebook, agradecemos ao Flávio Vietta pela gentileza!
“Mãe, que loja é essa???” Ouço de uma menina que passa.
“Não sei!” Responde bruscamente a mãe apressada, dando um puxão na filha, que olhava a grade.
Em outro momento, uma outra mãe, vê a curiosidade da sua filha e explica:
“Viu nenê? Essa é uma obra de arte, se chama LAR DOCE LAR, é uma ins-ta-la-ção! Bacana, né?”
E a criança, com os olhinhos brilhantes: “A-han!”
O Beto chega e já vem fazendo poesia:
Da mediação B:
Venham todos, todos!
Mediadores da Bienal
Lojistas, faxineiros e seguranças
Aproximando o público da Arte atual
É bom imaginar-se um personagem nessa situação. É bastante opressivo emocionalmente sustentar uma expressão de sentimento nulo, uma certa indiferença necessária por vezes para manter a performance. A interação com a Cláu, sem podermos ser nós mesmos, dói. Imagino que os atores estudem tanto para despir o ego e conseguir ser outros. E então se libertar. Algumas prisões são armadilhas do ego...
E mais uma reação: uma pessoa assobia um trecho da melodia. Curiosamente, quem assobia essa canção nunca assobia o refrão, mas sim a ponte.
Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007.
SEGUNDO DIA
10h23min
Sim, definitivamente, as manhãs são mais tranqüilas do que o restante do dia no shopping.
As pessoas passam mais apressadas pelo nosso LAR DOCE LAR, e poucas param para ver ou ouvir nossos cds\passarinhos.
Estamos reaprendendo a viver, aqui dentro... Por mais estranho que possa parecer. Uma das mais importantes descobertas é baixar totalmente o ritmo. Tudo é feito devagar, aproveitado ao máximo, para fazer com que estes dias sejam significativos. Tudo vira poesia quando se está atento. O casaco do Beto na cadeira, ao lado da grade, com lojas e passantes ao fundo, de repente, é bonito. Os olhos acostumados a correr, correr, correr, se re-acostumam a simplesmente olhar. Um espectador comenta que as grades já são um “absurdo normal” na vida da gente. Sim. É isso. Nas casas, nas mentes, nos corações.
O telefone toca e é nossa grande amiga Bibs... Um pouco de conversa e estamos emocionadas, declarando nosso amor uma pra outra, falando de inspiração, de arte, de ter coragem de fazer as coisas que desejamos, de mostrar o que sentimos, de sermos nós mesmos. A opressão de estar nestas grades está libertando nossos corações. Talvez porque estejamos vivenciando arte e essa experiência torna tudo mais sensível.
Hoje a regra é falar o mínimo possível com os espectadores. É proibido mediar.
Mais um espectador chega, ouve os primeiros 20 segundos, e não dá chance para a letra da canção começar. Que engraçado seria se Gil tocasse a canção Palco e o público se retirasse na vocalização inicial.
Estamos lendo:
“A revista para quem tem um alto padrão de vida”.
Desfilo de pijama pelo shopping para ir ao banheiro. Um tip-top verde, xadrez, nada discreto. Incômodo geral... Umas pessoas sorriem pra mim, outras fingem naturalidade. Talvez pensem que estou lançando moda... Ouço: “Queria um emprego destes pra mim!”
...
Que delícia ouvir as pessoas rirem quando escutam a canção...
Que delícia ouvir de uma senhora: “Que alegria vir aqui de manhã e encontrar vocês, assim, aqui, num trabalho tão belo, que bom saber que tem gente que pensa como a gente!”
E uma moça vir dizer: “Parabéns, normalmente eu não gosto de instalação, mas adorei a de vocês!” ...Ah, pára, quem não ficaria feliz com um comentário desses sobre o próprio trabalho?
Nossa tentativa de não falar com o público nem sempre dá certo... E essa é uma característica que está definindo este trabalho... Por vezes, ele é quem dita as regras, não temos total controle de nada. E isso é muito interessante. Um homem chega à grade e pergunta se podemos falar. Digo que normalmente não falamos, mas poderíamos falar com ele. Inicia uma conversa sobre arte que durou quase duas horas. Filosofia pura, arte contemporânea, sociedade. Os motivos que nos levaram a estar com este trabalho e não qualquer outro. Uma conversa que gostaríamos de ter gravado.
Acabamos conversando sobre o que não gostaríamos de conversar, ou seja, sobre o trabalho, já que pensamos que não podemos explicá-lo para não privar as pessoas das suas próprias interpretações. Compreendemos que o LAR DOCE LAR não poderia ser diferente, de forma alguma. Surgiu de uma inquietação com o tema, que virou melodia, depois letra, depois canção, depois a obra materializada. O motivo de ter a forma que tem é o reflexo do que vivemos. Para passar o que gostaríamos de passar, neste momento, é assim que idealizamos e é assim que está, de fato, comunicando. Ironizando a tranqüilidade com que todos nós lidamos com assuntos que deveriam nos preocupar, ironizando a sociedade do espetáculo. Nosso trabalho não existiria se não fosse exatamente como é e onde está. E o melhor, está se transformando e agregando coisas totalmente inesperadas. Cá estamos, são 14h30min, o shopping está cheio (de pessoas e de obras de arte!) e estamos conseguindo expressar algo para alguém, através da arte, isso é o que importa.
Enquanto o Beto joga vídeo-game, eu escrevo. A cena deve ser bem interessante para quem passa. O retrato da conteporaneidade: o casal lado a lado, cada um no seu mundo tecnológico.
...Dividimos um sonho de doce de leite delicioso, aos olhos curiosos dos passantes, depois lambemos os dedos. Ninguém lambe os dedos, afinal? A-han... Vou fingir que acredito.
15h30min. Sim, está descoberto o horário de maior movimento do shopping, para quem possa interessar. Os fones de ouvido estão sempre ocupados.
Olhar em volta é muito interessante!
Moça desengonçada se equilibrando no salto finíssimo e altíssimo; funcionários de uniforme; senhorinhas lindas, arrumadíssimas para passeio; pessoas com pressa; pessoas sem pressa alguma; bandeiras coloridas da Bienal B; a obra gigante do artista Zupo; o elevador com o trabalho do coletivo de artistas Pelos Muros... O shopping adotando a arte!
Som do elevador; sons de celulares; um segurança fala no walkie-talkie; senhoras conversam. E um burburinho permanente ao fundo, com cheiro de café e sabonete.
Nossos sentidos estão em constante ebulição.
Pergunta de um espectador: “Vocês não vão sentir falta do tempo que estão perdendo aí dentro?”
...
A fome apertando e, bem na hora em que íamos comer, chega um pessoal do jornalismo da PUC, querendo fazer uma entrevista. Coisas da “vida pública”. Esperamos que o ronco das nossas barrigas não apareça na reportagem.
Almoçamos com “pompa” no nosso LAR DOCE LAR pela primeira vez... Comida de verdade! Depois de dois dias de lanches... (Compramos com o nosso dinheiro. Nenhum comerciante do ramo alimentício apoiou nossa causa. Mas para a realização da obra tivemos o apoio da CABURÉ SEGUROS e da NAFTALINA BRIC. A CHILLI BEANS também nos apoiou, cedendo acessórios - óculos e relógios). É preciso citar e agradecer empresas que acreditam na arte. Obrigada! Aproveitando para agradecer também aos amigos que emprestaram móveis: Fernanda Barroso e Rogério Pessoa! Sem vocês estaríamos perdidos!!! E ao Jener Gomes, que conseguiu este lap top no qual escrevemos, com seu colega Flávio Vietta. Obrigada, amigos!) A união fez a arte!
...Um detalhe: almoçamos às seis da tarde! O tempo é estranho aqui dentro! Foi estranho comer com as pessoas olhando... Pequenos lanches são mais fáceis.
18h
Fila nos fones de ouvido!
“Tô aqui por que é de graça!” – Um comentário de um espectador com os fones de ouvido, pensando que falava baixo. Que bom que nem tudo é pago nessa vida!
“Que loucura essa música!”
18h52min
Já é noite e escrevo. É só olhar para cima e ver o escuro sobre o teto de vidro.
Escovar os dentes no banheiro do shopping virou coisa normal.
Hummmm... Não estaria na hora de vestir o pijama?
Pessoas passam e passam e passam e passam e passam e passam e passam...
O efeito exposição é interessante. Algumas pessoas passam a nos tratar como velhos conhecidos. Se estamos comendo, fazem comentários amistosos, como: “Ah, que delícia deve estar este sorvete!” E este tratamento é muito agradável, faz questionarmos o porquê de não nos tratarmos assim na vida cotidiana. O porquê do afastamento das pessoas. Na verdade, sabemos que vivemos um momento muito diferente disso, numa capital onde tudo é muito impessoal... Mas esta proximidade das pessoas traz uma sensação muito reconfortante e que gera uma nostalgia de um tempo que nem sei se vivemos...
Está muito frio. São 21h15min. O movimento caiu significativamente no shopping. Mas não na nossa CASA...
Estamos numa obra viva, que tem suas vontades e age de acordo com o espectador. Quando estamos calados, o trabalho acontece de um jeito. Quando as pessoas nos procuram, nos propõe algo, é como um jogo, que se modifica e adapta ao jogador. Das duas formas o jogo acontece.
O que faz com que as pessoas perguntem, é o local. Não esperam encontrar uma obra de arte no meio do shopping. Se estivéssemos dentro de um museu, não perguntariam. Entenderiam que é uma obra de arte, e pronto.
Instalação, performance, happening, ação, atividade, obra viva. Gesto artístico do coletivo de artistas: Cow Bees, exposto de 27 de Agosto a 29 de Setembro de 2007, durante a BIENAL B, no Shopping Moinhos,
O casal de artistas, Cláu Paranhos e Beto Chedid, “residiu” por 32 dias (Setembro/2007) num lar simulado, cercado de grades, dentro de um shopping Center, durante todo o horário de funcionamento.
Enquanto personagens, encenaram a vida comum: fizeram refeições, dormiram, conversaram, leram, fizeram ginástica, como num teatro da realidade. Em alguns momentos, circulavam pelo shopping em seus figurinos: pijamas, roupas sociais ou esportivas. O público podia, ou não, intervir, transformando e criando, junto à dupla, diversas situações inesperadas, que passaram a fazer parte da obra e modificaram a experiência a cada dia.
Presas à grade estavam duas gaiolas nas quais em vez de pássaros, havia Cd players com fones, onde se ouvia a canção Lar Doce Lar, de autoria dos próprios artistas.
A vivência foi documentada através de fotos, vídeos e um texto diário, publicados neste blog.
Parte desse registro gerou o vídeo Lar Doce Lar: (http://www.youtube.com/watch?v=SqPG761mu5k&feature=channel).